DISCOS
Xiu Xiu
Women As Lovers
· 02 Abr 2008 · 08:00 ·
Xiu Xiu
Women As Lovers
2008
Acuarela / Popstock!


Sítios oficiais:
- Xiu Xiu
- Acuarela
- Popstock!
Xiu Xiu
Women As Lovers
2008
Acuarela / Popstock!


Sítios oficiais:
- Xiu Xiu
- Acuarela
- Popstock!
Homo Sapiens Sapiens à beira de um ataque de nervos de acordo com um Jamie Stewart cada vez menos resolvido.
Além da fixação mantida por temas como a sexualidade, política e aspectos vários da vida social, o cinema de Woody Allen e a música dos Xiu Xiu parecem partilhar de cada vez mais paralelismos. À cabeça, surge a exposição ao mundo que Woody Allen e Jamie Stewart – hoje e sempre, o mentor dos Xiu Xiu – preferem assumir como se não temessem quaisquer julgamentos: o primeiro casou-se com a bem mais nova Soo-Yi Previn, sendo essa filha adoptiva da actriz Mia Farrow (com quem o realizador mantivera uma relação), o segundo aproveitou o blog da banda (http://www.xiuxiu.org) para elaborar uma lista completa de todas as pessoas com quem alguma vez teve relações sexuais, limitando os nomes dos visados às suas iniciais (ao jeito de Laura Palmer no seu diário). Os filmes de Woody Allen, tal como os discos conhecidos aos Xiu Xiu, preservam uma quase imperturbável regularidade anual e uma vincada preferência pelos mesmos motivos visuais (o cineasta nova-iorquino adopta, desde há muito, o mesmo estilo clássico nos créditos iniciais dos seus filmes, enquanto que os discos da banda californiana apresentam, nos seus booklets, corpos nus geralmente desfocados, fotografados de perfil, sujeitos a um qualquer tipo de humilhação). Os geniais diálogos entre os protagonistas de marcos como Annie Hall funcionam quando isolados do contexto global do filme em que surgem, um pouco como os singles “I Luv The Valley” (Fabulous Muscles) ou “Boy Soprano” (The Air Force) resultam e movem sentimentos mesmo quando à margem dos respectivos álbuns. No fundo, Woody Allen e Jamie Stewart são seres complexos perdidos entre os corredores dos seus próprios labirintos psíquicos, contudo predominantemente dispostos a exteriorizar (ou exorcizar) esse convívio através de episódios assumidos numa primeira pessoa mais confessional ou, de outra forma, num “eu” disfarçado pela pele de uma terceira pessoa (repare-se em como o cineasta ianque contava com Kenneth Branagh como sua projecção ideal em Celebridades).

Formando narrativa a partir da análise de um processo criativo estagnado, Woody Allen dedicava o seu filme Desconstruindo Harry à história de um escritor a atravessar um “bloqueio” que consigo trouxe as aparições em carne e osso de vários personagens pertencentes a livros do próprio autor. A matemática desta digressão opinativa impõe que esta seja a altura certa para ditar o novo Women As Lovers como a mais actualizada e optimizada versão da eterna saga Desconstruindo Jamie Stewart. Sendo que pode bem ser esse o termo adequado para o disco de Xiu Xiu que mais declaradamente aglomera a veemência dos cinco registos anteriores – através da mesma ofensiva de electrónica, percussão e grandiosidade aplicada segundo a estratégia de um ataque aéreo -, sem deixar sequer de parte a sempre preciosa oportunidade de descaracterizar a sua face – e estrutura das suas canções – com as partes mais afiadas de estilhaços colhidos às profundezas existenciais de alguém que permanece tão aterrorizado quanto sempre face ao compromisso imposto pelas relações afectivas e crucialidade das decisões constantes que as mesmas exigem. Por esta altura, a soberania temática da repetente trilogia “religião, família e política” está de tal forma entranhada na fórmula disfuncional dos Xiu Xiu que é redundante citar os seus focos de acção.

Desta vez, a dolorosa decomposição do carácter de Jamie Stewart resulta num disco em que o termómetro demencial dispara até ao topo o mercúrio que pode bem ser o sangue fervente de alguém em litigio consigo mesmo, entregue às suas próprias diatribes, com o seu juízo feito num queijo suíço prestes a dar o tilt (só escutando se acredita que o refrão de “Puff and Bunny” possa mesmo ser um diálogo entre alguém desesperado e um pimento). Porém, enquanto o tino de Jamie Stewart desfalece, a robustez e capacidade metamórfica da banda - elevada a quarteto - são valores cada mais consolidados e facilmente verificáveis na assombrada “Child At Arms” (que baralha as noções auditivas de fogo de artificio e percussão de Ches Smith) ou na derradeira apoteose “Gayle Lynn”, que alterna entre a tonelada dos arranjos e a leveza de uma guitarra acústica vigilante. Em termos de grandeza pretendida, falha só mesmo a versão colectiva de “Under Pressure”, dueto imortalizado por David Bowie e Freddie Mercury. Era suposto Michael Gira cantar como um sexagenário que passa o dia no jardim a dar milho aos pombos? Não se descobrem as mesmas rugas vocais aos discos de Angels of Light onde o Senhor Gira é digno dos mais rasgados elogios (impulsionados por um We Are Him que é master-class em termos de escrita de canções).

Embora seja um disco que parece resultar da soma entre várias sensações de desconforto, Women as Lovers reencontra os Xiu Xiu na mesma zona de conforto do mapa estético que aperfeiçoaram para maneio interno. Atendendo a que representam ainda um dos mais fenomenais e insaciáveis nomes do indie norte-americano pós-milenar, admite-se com agrado que possam ter também direito ao seu próprio Murray Street (que, na sua altura, era sumário mais ou menos exacto de parte significante do espectro Sonic Youth). Continua a ser a mais triste das alegrias todo o convívio com um Jamie Stewart que continua a cantar no tom supra-dramático do lascivo compulsivo que cumpre celibato forçado há quase cinco anos. Women as Lovers acaba por ser sedutoramente intrigante mesmo aos olhos de quem desde há muito tem nos Xiu Xiu a mais amarga das suas amantes.
Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com
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