DISCOS
Steinbrüchel
Falte / Basis
· 12 Fev 2008 · 08:00 ·
Steinbrüchel
Falte / Basis
2007
Non Visual Objects / Room 40


Sítios oficiais:
- Steinbrüchel
- Non Visual Objects
- Room 40
Steinbrüchel
Falte / Basis
2007
Non Visual Objects / Room 40


Sítios oficiais:
- Steinbrüchel
- Non Visual Objects
- Room 40
VIP da música experimental europeia corre riscos (e renova-se) com duas incursões por terrenos imprevisíveis.
O traço vincado da estética do suíço Steinbrüchel representa a foice que pode levar o seu dono a sucumbir às mãos de si próprio. Além de bem patente em discos de afirmação como Circa ou Stage (ambos disponíveis na L-ne), essa mesma estética encontra-se ao acesso de quem a queira provar nos MP3 disponibilizados legalmente na residência online do próprio - http://www.synchron.ch - e um pouco por toda a parte. É bom ver democratizada uma amostra que dignifica em muito a música electro-acústica mais obsessivamente entregue ao esculpir dos seus detalhes. “Byakkomon”, por exemplo, é longa peça que ilustra bem o balanço de que Steinbrüchel é capaz quando entrelaça vagas de som contínuo e um indomável rodapé de irritação digital que é caracteristicamente seu. Essa e outras faixas encontram-no no seu terreno mais confortável. Não admira, pois, que Steinbrüchel, com vista à renovação, tenha procurado com dois dos seus mais recentes lançamentos - Falte e Basis - transcender limites pessoais, debatendo-se frontalmente com os de outrem e infiltrando-se também em universos alheio (embora próximos por afecto).

O primeiro dos desafios auto-impostos, Falte, quase parece ter partido da vontade de Steinbrüchel em desafiar alguém para um braço-de-ferro de estéticas – neste caso, o alvo foi o conterrâneo Bernd Schurer. Juntos montaram uma instalação sonora que havia sido exposta em Zurique em Setembro de 2006 e que por aqui conhece a sua documentação ligeiramente adaptada. Falte passa assim a ser diário de bordo escrito a dois pares de mãos hostis entre si e concordantes apenas em termos codificados. O combate avança à medida que se fitam dois sabres de luz que emitem maior radiação quando se aproximam mutuamente. Por radiação, entenda-se frequências em rota de colisão, a imperfeição sincronizada de Steinbrüchel votada a uma postura confrontante, toda a agonia da electrónica cacofónica que se sente ao peito de um andróide quando prestes a morrer.

Alguém se decidiu por aqui a encenar um duelo de esgrima em que saem sempre a vencer os sentidos gratificados de quem absorve este fluxo. Sobra um épico de inclinação dadaísta, altamente físico e cinético, que posteriormente adormece em vácuo e se desfia em infinitas vias tonais que dão uma aparência láctea a todos os momentos em que Falte mais se parece com um thriller psicológico filmado num ambiente de gravidade zero. Embora às vezes transpareça a sensação de que o objecto se arrasta (os seus 57 minutos exigem alguma paciência), Falte anula por completo a fome de quem já pudesse andar impaciente por encontrar Steinbrüchel num contexto como este.

As regras do jogo mudam por completo quando o foco recai sobre Basis, cofre escolhido por Steinbrüchel para o depósito de paisagens evocativas que manipulam e reconfiguram – em faixas separadas - a aplicação das gravações de guitarra originalmente empregues na composição dos fabulosos discos Happiness Will Befall de Lawrence English e Theory of Machines de Ben Frost (australiano entretanto sedeado em Reiquiavique), e também a matéria bruta colhida ao piano do acima referido Bernd Schurer, aquando de outra instalação sonora sua apresentada em Berna. Com esta imersão total em caudal alheio, Steinbrüchel separa as águas de um mar superabundante na sua carga acústica, permitindo que por entre esse circulem mais livremente cardumes de harmonias até aqui condensadas e agora reutilizadas como bafo quente. A bem da justiça merecida pelos dois discos que incitam ao terceiro, aponte-se que a riqueza que prolifera em ambos era, à priori, propícia a uma renovada filtração muito naturalmente sujeita evidenciar as mesmas essências dominantes nos monumentos-matriz: os interlúdios de Basis transparecem parte do maravilhar espiritual que era omnipresente em Happiness Will Befall, assim como a desolação e insinuado tom apocalíptico de Theory of Machines ecoa nos momentos em que é invocado. Sobre Basis, a mais imediata das noções a reter é a de que não se limitou à convenção de ser apenas um disco de remisturas. Steinbrüchel foi mais longe, no objectivo de reinvenção que estabeleceu para si e na admiração que maior destaque depositou em dois trabalhos legitimamente merecedoras de toda a atenção possível.
Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com
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