DISCOS
Curia
Curia
· 08 Jan 2008 · 08:00 ·
Curia
Curia
2007
Fire Museum


Sítios oficiais:
- Curia
- Fire Museum
Curia
Curia
2007
Fire Museum


Sítios oficiais:
- Curia
- Fire Museum
Antes de se aventurarem no Cabaret Maxime, em Lisboa, estes quatro completíssimos músicos portugueses apresentam a Curia para a estagnação.
Tirando partido da imobilidade da sua plateia, alguém tentava convencer os especados diante de um televisor de que dado território era um deserto. Como quem ensaia um ritual de hipnose, esse alguém gesticulava e repetia sem, sem, sem emparelhando a palavra com cada um dos elementos (casas, hotéis, etc.) que deviam preencher tal área para que não fosse um ermo onde nada se passa. A crer que é longa a distância entre o suposto deserto e quem apenas ouvir falar acerca do mesmo, não será de todo surpreendente dar conta de que alguns receptores passivos da mensagem possam, na necessidade de ter uma qualquer opinião em vez de nenhuma, consentir que o lugar em questão era, de facto, um vácuo, e isto sem nunca o terem sequer farejado.

Não se conhece a mesma tendência manhosa e ludibriante ao colectivo Curia, cujos integrantes já vão dispensando apresentações, mas confirma-se que também este seu primeiro disco é feito sem evidentes crescendos ou decrescendos, sem aparente necessidade de virtuosismos, sem estruturas imediatamente reconhecíveis nos seus quatro movimentos (é livre, sem ser promíscuo). Conforme as perspectivas, dir-se-ia sobre o trabalho lançado pela Fire Museum que o mesmo obedece às premissas de um protótipo de deserto ou, a partir de um ângulo mais construtivo, à disciplina da música que faz categórico uso da elipse e silêncio. Acontece que, mesmo sem largar ao ar um espectáculo de pirotecnia, Curia consegue arrancar reacções de pasmo por meio do avultado número de fenómenos que produzem, por aproximação (na eminência da fricção), os quatro elementos armazenados em sarcófagos separados: a bateria e percussão de Afonso Simões, o calejado órgão Hammond de David Maranha, a guitarra eléctrica wah de Manuel Mota e a guitarra eléctrica tocada com arco por Margarida Garcia (sendo o violoncelo de Helena Espvall, parte dos Espers, o quinto elemento convidado para valiosa participação pontual).

Sendo também por si só um novo mundo paralelo, Curia, ergue-se naturalmente sobre estratos que frisam as capacidades dos executantes, em vez de anulá-las por batalha de sobrevivência entre egos. Em certa medida, é disco onde a peregrinação dos instrumentos favorece um acompanhamento igualmente peregrino de quem escuta (mais abençoado, se movido por uma fé cega). Singra também enquanto conjunto de testemunhos registados no epicentro exacto de um diversificado sismo conspirado por quatro células que simularam um adormecimento faquir, mas que sorrateiramente foram palmilhando toda a dimensão dos seus respectivos espectros sonoros e, por arrasto, a avultada quantidade de recursos que esses oferecem, mais nitidamente quando respeitada a peculiar logística Curia.

Afinal, a progressão dos Curia desenvolve-se um pouco como a que separava Indiana Jones do Santo Graal n’A Grande Cruzada: sucede-se atenta ao soletrar pedonal das coordenadas que os seus membros têm como religiosas (tal como Indy tentava a palavra Jeová/Iehova) e manifesta-se mais repleta de ideias espontâneas quando sente o seu equilíbrio ameaçado (um pouco como o aventureiro, quando pisava em falso). Curia é disco de revelações a ter por perto daqui em diante. A estagnação é a doença, eles são a Curia.
Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com
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