DISCOS
Black Dice
Load Blown
· 08 Nov 2007 · 08:00 ·
Black Dice
Load Blown
2007
Paw-Tracks / Flur


Sítios oficiais:
- Black Dice
- Paw-Tracks
- Flur
Black Dice
Load Blown
2007
Paw-Tracks / Flur


Sítios oficiais:
- Black Dice
- Paw-Tracks
- Flur
O mais sexy título alguma vez atribuído a um disco de Black Dice revela um empreendimento de rendimento e gratificação menor.
Antecipava-se que, ao quarto longa-duração, os Black Dice vissem as suas probabilidades de surpreender limitadas às mesmas de que dispõem dois dados na soma de 7 ou 11 pontos entre as suas faces cimeiras. Condenadas à escassez, portanto. O ascendente de probabilidades não cessou de florescer entre Beaches and Canyons e Creature Comforts, período que afirmou os Black Dice como um dos nomes mais versáteis na obtenção de progressividade a um limite periférico do curto-circuito, mas não evitou um assinalável golpe com Broken Ear Record, que acrescentava ao estranho molde a paixão por uma obesa electrónica de aparato, embora esgotasse as suas próprias fórmulas auto-destrutivamente (sendo que talvez fosse mesmo essa a sua intenção terminal). Tentar, a partir da cinza néon de Broken Ear Record, formar a continuação Load Blown não só avoluma as suspeitas de que o trio nova-iorquino dificilmente se transcende a si mesmo, como também amplia o tamanho das letras com que se escreve um sinal dos tempos impossível de se exorcizar ao percurso aqui revisto: actualmente só um milagre conseguiria reproduzir o impacto revolucionário que Beaches and Canyons assumiu em 2002.

Essa discrepância entre o marco e o que lhe é subsequente conhece até atípico equivalente na memória recente do cinema politicamente incorrecto: a infame cena de Doidos por Mary, em que Cameron Diaz formava uma popa com o sémen que julgava ser gel, obrigou a ajustes mentais em 1998 e desde aí não deixou de conhecer réplicas cada vez mais banais. Load Blown não comporta a dose de transgressão que se espera dos Black Dice. O seu título declara até alguma proximidade face ao referido gag de Doidos por Mary, insinuando este disco como o climático bukkake (pesquisar a risco próprio) que extravasa os sintomas acumulados desde Broken Ear Record.

Ou seja, o trio, que em tempos recuados até tinha um sete polegadas intitulado Semen of the Sun, aproveita para, de uma só vez, proceder à eruptiva descarga que implica a transição da DFA para a label Paw-Tracks: somando as três faixas extraídas ao 12” polegadas Manoman na despedida da DFA, duas mais constantes de Roll Up/Drool carimbado pela Paw-Tracks e cinco outras que farão parte de um mini-LP também encarregue à filial animal da Car Park. Load Blown pode funcionar como álbum ou compilação, sendo que a segundo hipótese lhe elimina novidade. A estratégia de aglomeração é em tudo semelhante à que formou o muito badalado Person Pitch de Panda Bear (também editado pela Paw-Tracks) e isso só oferece indícios de que o melhor é mesmo irmo-nos afeiçoando à ideia dos teasers em antecâmara de obra completa nesta casa. Ou seja, à noção de que podem também produzir saliva os singles em antevisão de um álbum confiante do potencial desses mesmos.

Além da supramencionada, Load Blown mantém outras semelhanças que o tornam ainda mais comparável a Person Pitch: parece absolutamente empolgado com a hipótese de cruzar determinados elementos genéticos do hip hop e electrónica europeia, e, de todos os trabalhos atribuídos aos Black Dice, é o que mais directamente parece resultar da facilidade logística que, em viagem, oferece um laptop comparativamente a todo o arsenal mais “rock” (aspecto várias vezes frisado por Noah Lennox em explanação da estética do seu disco maioritariamente criado em Lisboa). Não surpreende pois que Load Blown prolifere em termos de loops alinhados na habitual cadência anómala, que os transpõe para um “corredor da morte” em que, à vez, vão tendo a oportunidade de sovar a vítima todos os vários efeitos, distorções, quebras abruptas e pontuais sub-graves infiltrados. Mais vezes do que seria desejado, os Black Dice desencontram-se do vigor frontal de Broken Ear Record e dão por si perdidos numa deriva que vitima o último terço de várias faixas de Load Blown. Sobra como factor optimista – pronto a substanciar a preservação de alguma crença – o cada vez mais apurado sentido clínico que os Black Dice manifestam na hiperbolização repetida de uma interferência ou resíduo glitch que podia até ter sobrado ao hip-hop futurista dos discos da fase Tical de Method Man ou às produções de El-P. Nesse aspecto, podem ainda vir a render muito as dissecações dos irmãos Copeland e Aaron Warren.

Em termos de tratamento exaustivo oferecido a um mesmo bloco sonoro, Load Blown aproxima-se até mesmo dos métodos explorados pelo disco-tatuagem Baghdad, paragem obrigatória na infinita discografia de Muslimgauze: ambos repetem obsessivamente os estilhaços libertados pela geografia visada – o primeiro não larga a Alemanha de várias eras (do kraut ao reinado Kompakt), o segundo fixa-se no Médio Oriente (como invariavelmente acontecia). Ainda assim, falta a Blown o risco de outras alturas. Falta-lhe essencialmente a imaginação e entrega que servem maravilhosamente à renovação de uma mind fuck a cargo do mesmo sujeito activo. Fica-se por um dos mais desanimadores bluffs do ano.
Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com
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