DISCOS
Supercordas
Seres Verdes ao Redor
· 12 Set 2007 · 08:00 ·
Supercordas
Seres Verdes ao Redor
2006
Trombador Discos


Sítios oficiais:
- Supercordas
- Trombador Discos
Supercordas
Seres Verdes ao Redor
2006
Trombador Discos


Sítios oficiais:
- Supercordas
- Trombador Discos
Afinal a rotina dos sapos e o verde dos pântanos podem ser esmiuçados a fundo sem o estudo ser enfadonho. Os Supercordas que o digam.
Não será o mais comum dos lugares-comuns, mas dizer de uma banda ou de um artista que ele faz música de Verão não é do menos ortodoxo que se ouve por aí. No caso dos brasileiros Supercordas, não há como dar a volta e é mesmo preciso recorrer a essa bengala estilística: a época estival é aquela para que as canções de Seres Verdes ao Redor mais remetem. Confirme-se com a primeira faixa, “E o Sol Brilhou Sobre o Verde”, cujo título quase bíblico marca o início dos tempos para os Supercordas. Como quem diz: raia o dia, o calor traz consigo a agitação diurna da charneca, as flores celebram a luz, celebremos nós também o verde que o pântano nos dá.

Seres Verdes ao Redor é o epíteto principal deste longa-duração e acerca das músicas desvenda logo alguma da estética que as compõe, mas o subtítulo Música para Samambaias, Animais Rastejantes e Anfíbios Marcianos completa melhor o ramalhete. Importa dizer que todo este imaginário de fauna e flora não é posto à ordem de uma lógica inócua onde se escrevem canções como quem se lembra de nomes de anfíbios que podiam grasnar em lagoas de águas paradas. A combinação de ambientes assumidamente infantis com alguma profundidade emocional é uma característica de um tipo de cultura (não só musical, também teatral e cinematográfica) que se poderia apelidar de maduramente infantil, ou melhor, cultura academicamente infantil de que os adultos é que gostam. Mas eles intuem com vontade o universo que criam, mesmo se nos concertos enovelam os suportes dos microfones em folhas de plantas artificiais. A sofisticada ruralidade é mui apreciável na capa que Wilson Júnior engendrou e em termos de imagem e imaginário os Animal Collective parecem ser uma referência.

Os parturientes principais deste universo são Bonifrate (melhor nome próprio na língua portuguesa?) e Valentino. O primeiro é o arquitecto paisagista, visualiza a planta da canção, estrutura-lhe a melodia, vê-lhe o melhor lado. O outro é engenheiro e construtor ao mesmo tempo, conhece as especificidades técnicas que limitam os instrumentos e a gravação vem ao de cima. Globalmente, a banda faz-se do cruzamento de beatlemaníacos com adeptos das novas músicas experimentais, mestiçagem que confere aos temas uma estrutura cançonetista polvilhada com aquilo a que os mais canónicos designaram de “barulhos não-justificados”. Linhagem Flaming Lips e Spiritualized no melhor sentido, mas em modo quasi folk, Seres Verdes ao Redor tem também o mérito de ter legado “Frog Rock” à música cantada em português, que é um dos seus melhores singles dos últimos anos (com a apropriação da palavra single no seu sentido lato de pop cantarolável mais ou menos universal). “Sobre o Frio”, assente em soluções que Badly Drawn Boy não desdenharia, é o ponto nevrálgico a partir do qual todo o álbum se expande em dois sentidos. Um deles chega a “Fotossíntese”, espécie de rapsódia hedonista que congrega um pouco do que é cada uma das outras músicas do álbum. O outro vai até “E o Sol Brilhou Sobre o Verde”, onde os coros beach-boysianos são senhores de si.

“Música clorofilada” ou “lodo psicadélico” foram alguns dos nomes inventivos que surgiram para segmentar estilisticamente os Supercordas. “Ruradélica” inclui-se entre o lote de músicas mais cantaroláveis do disco e a sua etimologia (rural + psicadélico) pode muito bem vir a fazer história. Não é só por eles quererem dar o trono de folk nacional “oficial” à música rural brasileira, como muitos já apontaram. É que ruradelismo até não assenta mal como tradução portuguesa para freak folk, área de confluência de tão diversas gentes.
Tiago Gonçalves
tgoncalves@bodyspace.net
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