DISCOS
David Maranha
Marches of the New World
· 05 Set 2007 · 08:00 ·
David Maranha
Marches of the New World
2007
Grain of Sound


Sítios oficiais:
- Grain of Sound
David Maranha
Marches of the New World
2007
Grain of Sound


Sítios oficiais:
- Grain of Sound
Pode o drone ser bélico e justapor a si tudo o mais que o ritualize? Pode, e tão meritoriamente quanto possível.
Prólogo

Quem, no anterior dia 13 de Julho, gozou do privilégio de assistir, num readaptado e espaçoso primeiro andar da Avenida de Liberdade, a uma das mais reveladoras noites musicais ocorridas em Lisboa recentemente, sabe bem os riscos que correram as fundações do prédio com o decorrer das trezes prestações alinhadas por doze divisões diferentes. Quem, na esperança de variar a colheita auditiva, transitou entre concertos ocorridos simultaneamente aos pares, sabe que o corredor entre os quartos era terra de ninguém – e de toda a gente – onde se ouviam misturados os ecos a duas frentes de batalha distintas. A certa altura, quase podia o ouvido esquerdo espiar a impaciência eléctrica de uns Frango reduzidos (de três) a dois e o ouvido direito interceptar a moral alta que impulsionava o maravilhar em delay dos Gala Drop, duo inversamente expandido a trio. Por recusa ou apenas por fadiga, o também participante David Maranha contrastava do cenário de guerra pelo aspecto espiritual que conferia ao bunker que lhe tinha sido estipulado para tocar o órgão Hammond. A aparência de veterano de guerra em momento de introspecção pós-guerra mais pesa por efeito da escassa luz reflectida na pinha depilada de Maranha a fazer lembrar Marlon Brando, que, em Apocalypse Now assumiu a interpretação lendária de um desertor – Coronel Kurtz - entregue a uma filosofia de reclusão algo demente imposta pelo meio selvagem.

I

Para chegar ao ponto em que se encontrava na ocasião acima descrita, David Maranha teria já acumulado cicatrizes e superado o seu próprio apocalipse, conforme se prova de seguida, além de bem entranhadas a habilidade e erudição próprias do veterano que fez dos Osso Exótico um nome a ter em consideração quando se recapitula a música experimental produzida em Portugal nos últimos 20 anos. Com um arrojo esclarecedor, Marches of the New World dita que as cinzas passadas podem bem ser azul calcetado a ouro, quando são abençoados com o dom de Midas os instrumentistas convidados a contribuir para o disco que agora edita a Grain of Sound: Helena Espvall dos Espers (violoncelo), João Milagre (baixo), António Forte (hercúleo na bateria) e Tiago Miranda, vértice dos incansáveis Loosers (encarregue da percussão). O elmo de liderança, contudo, ajusta-se perfeitamente à cabeça de David Maranha, que aguça a ponta da lança formada por um Marches of the New World, que é, ao mesmo tempo, colossal na transformação do menos em mais (muito mais), atormentadamente narrativo, quixotesco por obra dos desafios que imagina para si (conseguir manter o interesse climático de “Infinite March” durante 22 minutos é tão difícil como resgatar Sancho Pança ao pensar mundano). É disco de brio e alma ao qual se percebe inequivocamente a entrega de cada um dos participantes.

II

Pode até ser Marches of the New World um manifesto tacticamente balanceado para um ataque que serve de pretexto ideal a um efervescente e fértil drone todo-o-terreno na sua colonização do imenso silêncio que, aos olhos da armada liderada por Maranha, é sempre terreno virgem digno de ser ocupado. E o que é “Virgin Visions” senão um inabitado paraíso rodeado pelos hesitantes e abafados violino e violoncelo, que ainda só discursam através das suas cordas os sonhos de virem a fertilizar e, por conseguinte, anular por completo o silêncio? A resposta a esta e outras perguntas encontram-se num disco que oferece algumas das mais cruciais e grandiosas sensações do pós-rock e folk mais espectral, sem nunca se submeter a determinados mandamentos protocolares desses géneros.

III

Talvez seja a ponderada estratégia de avanço assumida por Marches of the New World a estabelecê-lo no campo do esplêndido e não do espalhafatoso, a colocá-lo mais próximo do sublime do cinema de Terrence Malick do que do folclórico Alexandre de Oliver Stone. É de louvar que um disco onde chegam a ser tirânicas as distorções e ressonâncias abertas do órgão Hammond e da guitarra dobro - missionariamente vocacionada para isso - também se preste a delegar tarefas singulares a soldados que oferecem garantias ao triunfo colectivo. Num ponto madrugador, em que o disco ainda se dá a conspirações, “Democracy” confia na exactidão sincronizada do baixo e percussão para descobrir antecipadamente as minas que devem evitar os muito mais impulsivos (ou apavorados) restantes instrumentos. Assim deve ser o comportamento do general decidido: orientar a sua gestão bélica entre o maximizar do seu poder de fogo (tudo aquilo que torna abundante e indomável o drone) e equilibrar isso com a precisão de alguns atiradores solitários (por aqui, recrutados à ala rítmica). Nenhum outro disco este ano faz melhor uso desse posicionamento que Marches of the New World. Depois de ter todas as batalhas ganhas, vence merecidamente a guerra.
Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com
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