DISCOS
Thee Oh Sees
Sucks Blood
· 23 Jul 2007 · 08:00 ·
Thee Oh Sees
Sucks Blood
2007
Castle Face


Sítios oficiais:
- Thee Oh Sees
Thee Oh Sees
Sucks Blood
2007
Castle Face


Sítios oficiais:
- Thee Oh Sees
Autêntica maravilha da lo-fi Americana diminui as saudades que alguém pudesse ter do John Dwyer eléctrico ao serviço dos Pink & Brown e Coachwhips.
Para mais incisiva identificação dos traços elementares que formam a raiz da mais preciosa música lo-fi, importa saber exactamente em que ponto de viragem os seus agentes - raramente reclamantes desse título – se desviaram de uma gestão reservada rumo a outra mais extrovertida, que, em grande parte dos casos, aniquila a essência que flúi como sangue no interior do género. Tome-se como exemplo óbvio, de peão envolvido num desses processos, alguém como Beck, que, apesar de ter adquirido maior popularidade como entertainer, nunca abandonou por completo a actividade centrada em gravações mais caseiras e eminentemente espontâneas, que abundam em bootlegs marginais e edições reservadas ao mercado japonês. Beck é de tal forma prolífico nesse âmbito, que a sua produção chega a ser temida pelo terreno de que se apodera nas inúmeras tentativas de emular um certo tom western ou uma fórmula country ou folk menos explorada.

Não vale a pena dissecar exaustivamente a carreira mais subterrânea de Beck para chegar aos Oh Sees, mas pode ser relevante frisar os esforços exercidos pelo autor de Mutations no sentido de revitalizar a autenticidade lo-fi, que estava um pouco condenado a perder ao abandonar a alçada do guru Calvin Johnson, autoridade na pop de quarto desarrumado, em prol de um lugar (insuflado pela Geffen) cativo como ícone geracional da MTV. Enquanto peças justapostas a “Looser”, na promoção de Mellow Gold, o álbum que revelou o californiano, os telediscos de “Pay no Mind (Snoozer)” e “Beercan” empreendem esforços no sentido de permitir a observação dos supostos cenários onde a mais sincera lo-fi floresce sem grande esforço de quem a cultiva: o primeiro exibe ruas traseiras trilhadas por skaters e uma América refundida embriagada em cocktails; o segundo celebra o estranho modo de vida dos vagabundos e descobre espaço para um solo de guitarra executado for Buzz Osborne dos Melvins, incorruptível entidade do meio independente.

O próprio teledisco de “Looser” era uma declaração de devoção a um ídolo de destaque na contra-cultura norte-americana, o acrobata montado numa moto Evil Knievel. Aglomeradas e acrescidas de outros tantos excertos de televisão trash, as evidências captadas nos telediscos assumem-se como manifestações de um complexo próprio de quem atraiçoava a ética lo-fi rendendo-se à indústria. A partir de outra perspectiva, podiam ser entendidos como marcos determinantes na estruturação de um mapa que delimita o imaginário de uma lo-fi que mais não é do que Americana votada à sua potenciação de dons natos e menos zelosa relativamente ao rigor técnico.

Tudo isto serve para explicar que Sucks Blood é um impar tesouro, em forma de "X", situado no mapa da mais pura lo-fi aqui revelada sob a forma de folk sonâmbula e rock afiançado por instrumentos que soam como se tivessem sido resgatados ao abandono numa fazenda. Como vizinhança de referência, o segundo disco dos Oh Sees sugere um imaginário que torna menos vaga a sua localização: gnomos de loiça com o nariz ao nível da relva, a astenia da América em transe, a programação nocturna de rádios que ninguém ouve, o lento progresso das paisagens de Gus Van Sant, as paragens mais recônditas de um fosso induzido pela ketamina e a abstracção temporal e espacial que dai advém. Estamos perante obra que medica as quantidades mais apropriadas de escapismo e sensações extra-corpóreas, quase sempre administradas brandamente pela mais que encantadora voz de Brigid Dawson, que torna “Sucks Blood” num dos temas insuperáveis do presente ano. Na tentativa de projectá-lo, imagine-se que alguém canta como quem liberta dos lábios bolhas de algodão doce que se acumulam numa nuvem que levita por força de um serrote (instrumento) adaptado à beleza da ocasião.

Contudo, nem só de Brigid Dawson se faz um disco fabuloso, já que o principal responsável pelo mesmo é um John Dwyer que se rende a cada um dos seus projectos com uma entrega que se supera sucessivamente a si mesma. Depois de períodos abençoadamente convulsos e eléctricos enquanto parte dos infames Pink & Brown, Coachwhips, ou como co-autor do corrosivo segundo disco dos Hospitals, a inquietude de Dwyer levou-o a aplicar-se a fundo nuns Oh Sees que surgem na continuidade de cinco volumes - entre a canção esboçada e um apetite experimental – assinadas com a sigla OCS (Orinoko Crash Suite). Os Oh Sees representam, em relação a esse legado, um estado evoluído onde são mais nítidas as vantagens de funcionar como banda. Sem que isso impeça John Dwyer de vestir a pele a um Tom Waits mais maldito e carregado de brio numa “It Killed Mom” que é nova marcha fúnebre a ser instaurada nos acampamentos ilegais de roulotes.

As formalidades introdutórias acabam por surgir apenas no fim de uma resenha apontada a um disco que também parece investido em inverter o sentido do tempo até que esse atinja o ponto onde a ferida era altamente improvável. A real beleza de Sucks Blood parte principalmente do facto das suas melodias pouco limadas parecerem tão globalmente alcançáveis – como se apenas à distância da obtenção de um estado de espírito que se desenvolve com a colecta dos símbolos de abstracção maioritariamente pessoais (próximos ou não dos que Beck promovia mediaticamente como quem indica a sua origem). O pacto, proporcionado por um disco tão intimista como este, aprisiona quem escuta num miradouro a partir do qual se observa a mais confessional e rica lo-fi norte-americana e as suas imagens próprias que se juntam às nossas. Por isso e tudo o resto, Sucks Blood é álbum de alma imensurável e candidato sério a pisar o pódio de 2007.
Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com
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