DISCOS
Psychic Ills
Early Violence
· 24 Mai 2007 · 08:00 ·
Psychic Ills
Early Violence
2006
The Social Registry / Flur


Sítios oficiais:
- The Social Registry
- Flur
Psychic Ills
Early Violence
2006
The Social Registry / Flur


Sítios oficiais:
- The Social Registry
- Flur
Quanto mais bate este envolvente shoegaze cíclico, mais volta Nova Iorque a merecer ser amada.
Apesar de representado em minoria, entre o rock MTV da época (Stone Temple Pilots) e o peso de nomes respeitáveis do metal (Pantera e, lá perto, Helmet), o shoegaze de topo incluído na banda-sonora d’ O Corvo - cedido pelos Jesus & Mary Chain e Medicine - terá sido dos principais motivos pelos quais se tornaram memoráveis várias sequências do filme que ceifou (e mitificou) a vida a Brandon Lee. Contextualizado com a adaptação para cinema da tal banda-desenhada dedicada ao herói vingativo, o shoegaze servia essencialmente para acompanhar e estilizar a vertigem em que descarrilava a ruína e devassidão semeada pelo vilão T-Bird e o seu gang, em vésperas de Noite das Bruxas. Além disso, o amplo rock de olhos sobre a biqueira dos sapatos conferia um tom avermelhado a uma cidade de outra forma perdida num profundo negro gótico adensado pelos Cure e Nine Inch Nails também presentes na banda-sonora. Conforme saberá quem já assistiu ao filme, um corvo sobrenatural oferecia imortalidade temporária ao herói Eric Draven enquanto esse vingava a violação e homicídio brutal de si mesmo e da sua noiva por parte do referido gang. A violência dos Psychic Ills conhece um uso menos destrutivo: transpõe o ajuste de contas da chuvosa Detroit para uma Nova Iorque onde a ameaça são os novos poseurs, gente que escolheu a gravata antes da palheta para a guitarra. Em ambos os casos, são armas da mais avassaladora utilidade o shoegaze e o psicadelismo que chega a emitir o primeiro quando atinge um ponto desejavelmente excessivo.

Posto isto, esclareça-se que Early Violence, aqui na berlinda, serve para unir no mais prático formato CD a produção do quarteto nova-iorquino que, até aqui, constava apenas de um 7 polegadas intitulado Mental Violence I e do seu congénere maior, o doze polegadas Mental Violence II. Acrescente-se a isso um par de faixas dispersas e o resulto obtido é uma excepcional compilação cuja legitimidade podia depender somente da qualidade do período, que mais do que justificadamente vê o seu público expandido com a transposição de uma exclusividade vinil para o mais abrangente meio do CD.

Além de que nem é por Early Violence ser uma compilação que passa a apresentar menos coesão que o debute (e único álbum até à data) Dins, que, aliás, pode nem ter ganho tanto quanto isso ao ter refinado e articulado em complexidade o que de mais rugoso e perfumadamente baço se pudesse descobrir ao shoegaze dos Psychic Ills, quando em estado embrionário (registado de forma estupidamente lo-fi na faixa bónus “Diamond City Redux” aqui incluída). Tal mudança fez-se ampliando a palete de recursos e anulando parte do fulgor que oferecia a circularidade dos primeiros sinais de vida reunidos em Early Violence.

Por esta altura, já se deve ter tornado perceptível que esta rapaziada é capaz de pequenas maravilhas no que toca à arte de tornar um andamento rock num mecanismo cíclico que subtilmente engana o ouvido e, com isso, evita a saturação. Além disso, importa realmente assinalar que os Psychic Ills praticam um rock que leva a que se julguem as cordas da guitarra como extensões das veias que salienta o braço esquerdo para submissão à violência que, conforme o entende a mão direita, é método assente. E a discordância que se possa descobrir entre o riff incessante e o feedback que nem duas mãos domam é quase sempre poesia indescritível nas peças incluídas em Early Violence. Cápsula e cereja de tudo acima argumentado: “4AM” e um abafado baixo transversal enquanto excelente exemplo de como reavivar o pós-punk de Manchester evidenciado a mesmo sensação de colapso eminente, mas evitando o enésimo decalque dos Joy Division. A sova de ruído em que termina "4AM" é quase merecida e recebida de bom grado, tal é o maravilhar que proporciona o seu novelo de guitarra e drum machine em implosão de delay.

Quase apetece apelar a que Nova Iorque não mais se embarace pelo mau nome que lhe foi sendo atribuído por um incalculável número de subprodutos trajados a rigor. Early Violence é incontestável ponto a favor da requalificação e dignificação de um shoegaze mais narcótico que pode bem ainda fazer todo o sentido actualmente. É sobretudo magnífica prova de que existem preliminares às vezes mais empenhados que o acto em si.
Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com
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