Pink Floyd: Por falar nisso
· 25 Fev 2008 · 08:00 ·


  Um mergulho em �guas cartografadas

Steve O�Rourke, empres�rio do grupo desde 1971, continuava a edificar o imp�rio Pink Floyd. Abria-se a gaveta da caixa registadora. O grupo via-se metido num esquema perigoso: a Gini pagava-lhes a soma de cinquenta mil libras pelos direitos de utiliza��o de algumas can��es � m�sica ketchup, portanto. A grava��o de Wish You Were Here (1975) era err�tica: Waters punha v�rias vezes o projecto em causa, Gilmour entretinha-se a tocar com os Sutherland Brothers e Mason produzia Rock Bottom.

Wish You Were Here acordava Syd Barrett da sua lat�ncia. �Shine on You Crazy Diamond� e �Wish You Were Here� eram-lhe dedicadas numa altura em que o grupo necessitava de refer�ncias para n�o sucumbir �s press�es da industria, press�es essas muito bem descritas em �Welcome to the Machine� e �Have a Cigar�. Barrett aparecia no est�dio. Roger Waters (Uncut, Maio de 2007): �Costumava aparecer nos nossos concertos, � espera de poder tocar, penso eu. N�o tenho a certeza do que queria ele nesse dia. Foi uma coincid�ncia bizarra porque est�vamos a trabalhar na �Shine on You Crazy Diamond�, precisamente na altura em que ele apareceu. Eu n�o o reconheci. Pensei que aquele tipo gordo e careca, que comia doces em pleno est�dio, se tratava de um amigo de algu�m. Penso que ter� sido o David quem disse: �Ainda n�o perceberam, pois n�o?��
 


 

No tempo em que os porcos voavam

Fim de Janeiro de 1977. Os Pink Floyd lan�avam o seu d�cimo �lbum, Animals. Em palco, a componente c�nica do grupo continuava a progredir: Roger Waters usava um oscilosc�pio que lhe permitia verificar, a cada instante, se continuava afinado e uns auscultadores que lhe devolviam o balan�o geral misturado por Brian Humphries; Nick Mason dispunha de uma pl�iade de microfones que s� entravam em funcionamento quando o objecto que captavam era percutido. Resultado: um som geral com uma clareza admir�vel.

Para os seus concertos de 1977, os Pink Floyd usariam momentaneamente o espelho reflector anteriormente utilizado pelos Rolling Stones. Far-se-iam ainda acompanhar de um segundo guitarrista, Snowy White, e voltavam a chamar Dick Parry (saxofone e, desta vez, teclas). Gilmour e Waters n�o comunicavam com o p�blico: apenas um curto e seco �Good night�. O vazio era, no entanto, plenamente preenchido por geringon�as imponentes: um enorme porco voador, gruas luminosas e um desenho animado de Gerald Scarfe (seria o respons�vel m�ximo pelas artes de The Wall). Os m�sicos mantinham, ainda assim, um ar despretensioso: os gigantes da ind�stria pop n�o cometiam as mesmas extravag�ncias de Elton John, Freddie Mercury (Queen), Mick Jagger (The Rolling Stones) ou Rod Stewart.

Animals, mais do que qualquer outro �lbum lan�ado pelo grupo at� essa altura, n�o s� espelhava essa mod�stia como fazia com que os Pink Floyd descessem � arena. Com os olhos postos no poema Meat, de Brian Patten (�N�s somos o que comemos, e comemos o que somos��), Animals tornava ainda mais obsoletas as palavras de ordem do Punk, enquanto esbo�ava uma divis�o social em tr�s n�veis: os C�es (�Dogs�), seres calculistas e agressivos que procuram, sem olhar a meios, o poder e o dinheiro, investindo a sua energia no pragmatismo e atribuindo-se a si mesmos a mais terr�vel das san��es: a insatisfa��o permanente; os Porcos (�Pigs - Three Different Ones�), exist�ncias apenas merecedoras de piedade que se reprimem a si e aos outros; e os Carneiros (�Sheep�), que s�o enganados, iludidos e mistificados, mas que aceitam a sua situa��o com resigna��o.

 


  A marcha dos martelos

Por cima da entrada para o est�dio, um enorme letreiro avisava: �NO CAMERA! NO TAPE RECORDER!� A entrada fazia-se de forma ordeira. O recinto estava mergulhado numa obscuridade quase total. Apenas um projector se encontrava aceso, no centro do palco. Gilmour, que se encontrava nos bastidores, volveu um novo olhar para a guitarra que lhe fora entregue minutos antes. Uma loura bem arranjada preparava-se tamb�m para ocupar a cena. Era ainda cedo, mas, disse ela, conseguiria desta forma sentir melhor o seu papel. Gilmour respondeu que podia sentar-se, se assim o entendesse. A loura afundou-se imediatamente, como uma massa mole. Gilmour tentava ignor�-la. Concentrou-se em algumas passagens mais dif�ceis, percorrendo com os dedos as cordas de uma guitarra ainda silenciosa.

L� fora, a parede estava meia constru�da e descia em escada, de ambos os lados do palco, deixando entre si uma abertura de cerca de vinte metros por trinta de fundo, onde se achavam alguns instrumentos. Em frente ao palco e a uns cento e cinquenta metros, um Spitfire pairava amea�ador. Soavam rugidos de motores e crepitares de metralhadoras. Do tecto pendiam estandartes negros, vermelhos e brancos com dois martelos cruzados ao centro. Um boneco desarticulado repousava.

O mestre de cerim�nia fazia a sua apari��o: �Pe�o-vos para n�o atirarem petardos porque esta noite haver� explos�es suficientes nas vossas cabe�as. Lembro-vos que � proibido tirar fotos�� O resto da frase perder-se-ia sob um ribombar do �rg�o, enquanto o Spitfire mergulhava sobre o palco produzindo um ru�do devastador, acabando por se despeda�ar numa magn�fica explos�o. O grupo duplo abria o espect�culo: Andy Brown (m�sico extra dos Status Quo durante as digress�es) no baixo, Willie Wilson na bateria, Snowy White na guitarra e Peter Wood nas teclas.

O p�blico ficava siderado com a qualidade do som quadrif�nico. Os efeitos sonoros, o rugir dos avi�es, o cantar dos p�ssaros, as vozes e os solos de Gilmour encontravam-se perfeitamente ligados, soldados; as vibra��es, os suspiros, os risos e as gargalhadas formavam um rendilhado que enchia a atmosfera. Os olhares desviavam-se agora na direc��o de uma esp�cie de aranha-gafanhoto que se erguia a uns bons dez metros de altura.

Os roadies continuavam a colocar tijolo sobre tijolo. Os Pink Floyd quase se perdiam algures por tr�s de uma imensa parede onde figurava, ent�o, a primeira anima��o de Gerald Scarfe: um caule mole e ondulante que fazia desabrochar uma corola doce, graciosa, atraente. Juntava-se-lhe outro. Ap�s um beijo, a corola abria-se e, lentamente, o estame transformava-se em brecha, promessa de prazeres, sedutora, que se deixava penetrar antes de engolir o pr�prio corpo que a penetrava.

Os projectores estavam centrados em Gilmour. Wright era o primeiro a desaparecer por tr�s da parede onde agora se projectava a imagem de um louva-a-deus de cara rude, cabelos grisalhos severamente puxados para tr�s, olhos azuis de express�o dura e sobrancelhas deslavadas mas que se franziam de forma amea�adora. Brilhavam ainda as imagens do terr�vel bailado da paix�o devoradora; a corola engolia o seu sexo e o estame que a penetrava, transformando-se depois num pterod�ctilo que pairava, amea�ador, sobre uma cidade.
 


  �I need a dirty woman!�, gritava Waters. Um telefonema sem resposta e a voz de uma mulher que propunha: �Queres um copo de �gua?� Ei-la, a mulher loura que antes ocupava a antecena: esguia, graciosa. Lan�ava um olhar curioso em redor do quarto, �s guitarras, � casa de banho. As cortinas dissimulavam as portas dos arm�rios, faziam sobressair o matiz mais claro das paredes e davam uma impress�o de regularidade geom�trica. O ch�o encontrava-se pejado de pequenos objectos organizados como se de uma pequena cidade se tratasse. Waters permanecia absorto: pensava por que raz�o a esposa n�o lhe atendia o telefone. Cruzava-se com o mi�do que antes fora, com os sarcasmos negros dos professores, com a protec��o invasiva e castradora da m�e. Levanta-se depois, e gritava � loura: �Queres ver televis�o? Ou experimentar os len��is? Ou contemplar a auto-estrada? Queres comer qualquer coisa? Queres aprender a voar? Queres ver-me a tentar? Queres chamar a b�fia? Achas que j� � tempo de eu parar? Por que foges?�  


  Os espa�os vazios haviam sido totalmente ocupados. A impon�ncia da parede esmagava o grupo duplo que agora aparecia com as caras pintadas de branco. �Est� algu�m a� fora?�, repetia uma voz vinda do interior. E novamente a parede se enchia de imagens, desta vez a preto e branco, de uma outra �poca. Era a guerra. Novamente os Spitfire, as fotos de fam�lia, os soldados que partiam, as mulheres de m�os estendidas e as faces que, pareciam sab�-lo, n�o voltariam a ver. Vera Lynn cantava: �We'll meet again, don't know where, don't know when / But I'm sure we'll meet again some sunny day�. Estranhas e aterradoras personagens animadas passeavam-se pelo imenso ecr�: um professor a passar os seus alunos por uma m�quina de picar carne; a m�e devoradora, monstruosa, portadora dos primeiros castigos; a esposa de olhos exorbitados, dentes acerados e pernas macilentas provenientes de um sexo deformado; um juiz anafado; e a aterradora marcha dos martelos cada vez mais numerosos.

Os dois grupos juntavam-se em cima do palco. Waters envergava um blus�o negro; no bra�o uma bra�adeira com os dois martelos cruzados. Estava prestes a ser julgado pelo seu crime: possu�a sentimentos. A parede, enquanto s�mbolo de reclus�o proteccionista e opressiva, seria destru�da por ordem do tribunal. Era o fim da descri��o minuciosa, quase s�dica, man�aca e sem tr�guas dos alegados mecanismos de destrui��o de uma personalidade, que depois se tornava ela pr�pria destruidora de outras personalidades � o homem alienado pelo homem que se transformava em alienante.
 


  A obra era impressionante e o espect�culo tamb�m. Contudo, os Pink Floyd h� muito haviam cessado de existir enquanto bloco criativo. The Wall mostrava um Waters em plena superintend�ncia. Dizia Bob Geldof (Boomtown Rats; organizador do Live Aid (1985); representaria a personagem principal em The Wall, o filme de Alan Parker inspirado na narrativa de Waters) � revista Rock & Folk em 1982: �A personalidade em quest�o, no filme, � a de Waters. Tudo � autobiogr�fico, os pormenores mais �ntimos s�o rigorosamente aut�nticos, pensamentos, paran�ias, destrui��es, sonhos, pesadelos, etc. Por outras palavras, o n�vel de loucura a que chegou. A sua lucidez, a sua condi��o. E finalmente o �dio que tem a si pr�prio � como ao resto das coisas.�  


 

O sonho do p�s-guerra

The Final Cut (1983) tinha como ponto de partida o p�s-guerra das Maldivas. Este acontecimento, mais do que qualquer outro anterior, parecia ter exercido um efeito de catarse sobre a psicologia de Roger Waters. As recorda��es e os traumas ligados � Segunda Guerra Mundial e � morte do seu pai, misturavam-se com as imagens da partida dos soldados, do desespero das fam�lias e das cerim�nias f�nebres para os desaparecidos � uma mistura do ent�o quase presente com o passado long�nquo, a dial�ctica entre o destino pessoal e as vicissitudes sociais e pol�ticas, que, por se alhear um pouco do simples car�cter pessoal presente em The Wall, fazia de The Final Cut um registo bastante mais forte do que o seu antecessor.

Waters libertava toda a impetuosidade do seu �dio por qualquer esp�cie de socializa��o organizada, pela pol�tica ou pela pr�pria viol�ncia (uma das suas muitas contradi��es). Os Pink Floyd, todavia, desmaterializavam-se: Richard Wright havia sido despedido e Nick Mason n�o ficaria at� ao final das grava��es. O resultado, embora apurado, ressentia-se e o t�tulo ganhava outras conota��es: �a montagem final� de The Wall transformava-se tamb�m na �pe�a final� dos Pink Floyd. Sentia-se nele a morte: o �ltimo corte, o golpe da espada; morte de um grupo, morte no campo de batalha, morte de um pai, fantasma da morte de um filho, do pr�prio autor� O aspecto mais paradoxal de The Final Cut estava no facto de, por entre todo esse pessimismo m�rbido, trespassarem ainda assim momentos de esperan�a, de ternura at� (�The Gunner�s Dream� e �The Final Cut�).

 


  E depois do adeus

Em 1987, Roger Waters estava a viver a sua era p�s-Floyd. Com quarenta e tr�s anos, algumas madeixas grisalhas a aparecer, parecia equilibrado e franco: �Desde que deixei de operar sob a ociosidade dourada dos Pink Floyd, preciso de toda a ajuda que consiga obter� (Creem, Novembro de 1987). Tendo abandonado os Pink Floyd dois anos antes, Waters preparava-se para desencadear uma vasta ofensiva judicial contra os outros Floyd. A raz�o era simples: os �Pink Floyd� (Wright dava apenas uma perninha) tinham acabado de editar A Momentary Lapse of Reason (1987) e Waters achava que o nome do grupo, �por ter um grande significado para muita gente, n�o deveria ser usado como chamariz para atrair pessoas�. Perderia a ac��o que, retrospectivamente, apenas serviria para cavar um fosso entre as partes. Seriam precisos quase vinte anos e um mega-evento, o Live8 (2006), para que os Pink Floyd voltassem a tocar juntos. Entretanto a discografia do grupo crescia: A Momentary Lapse of Reason, The Division Bell (1994) e os �lbuns das respectivas digress�es, Delicate Sound of Thunder (1988) e Pulse (1995), vendiam como p�ezinhos quentes embora fossem apenas �lbuns de m�sica � raramente boa, quase sempre desinteressante.
 

Da esquerda para a direita: David Gilmour, Roger Waters, Nick Mason e Richard Wright (2006)

  Em 2007, quando questionado sobre uma poss�vel reuni�o pela revista Uncut, Waters respondia o seguinte: �H� vinte anos que os Pink Floyd s�o o beb� do Dave e ele n�o abre m�o disso. Se consegu�ssemos p�r para tr�s das costas os nossos egos e a nossas hist�rias, poder�amos fazer umas datas em Londres, Nova Iorque, algumas em Los Angeles, Palestina, etc. O esfor�o n�o valeria a pena por causa de um s� concerto. Mas se o objectivo fosse o de tocar algumas datas, estaria disposto a dedicar seis meses do meu tempo. Tenho a certeza de que o Nick tamb�m estaria disposto a isso, mas n�o o Dave. � a sua prerrogativa e n�o posso censur�-lo por isso. Nos anos �70, quando ainda estava no grupo e d�vamos imensos concertos em est�dios, era eu quem tratava disso tudo. Escrevia a maior parte das can��es e preparava todos os espect�culos. Acho muito dif�cil isso voltar a acontecer��  

Samuel Pereira
an_american@paris.com

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