Dance Damage + Grabba Grabba Tape + Ginferno
Galeria Zé dos Bois, Lisboa
21 Jan 2005

A segunda festa Kid City na Galeria Zé dos Bois, em Lisboa, com duas bandas espanholas e uma portuguesa, foi a puta da loucura, ou outra coisa assim. Desde ietis cor-de-rosa com sintetizadores e vocoders até dançarinos asiáticos de flamenco, houve de tudo. De tudo. Doença, demência, álcool, Deus, Satanás, o que quer que fosse, nada de normal passou por ali.

O nome dos Dance Damage não se escreve assim, "Dance Damage". Há uma alternância qualquer entre maiúsculas e minúsculas que é demasiado aleatória e desprovida de sentido para estar a escrever todas as vezes que menciamos o seu nome. Por isso, não vou fazê-lo, são os Dance Damage e pronto. O problema nos Dance Damage reside em não fazerem assim tanto jus ao nome. Como ficou provado, não conseguem pôr uma sala inteira a dançar. Não são totalmente dançáveis, só parcialmente. E vêm de Santo Tirso, talvez o pior local de origem para uma banda dancepunk, punkfunk ou noise ou o que quer que eles queiram que nós lhes chamemos. Gostam dos PiL, de Johnny Rotten e a voz tenta emulá-los de cada vez. Virar-se para um registo mais noise, como os Liars fizeram o ano passado ou no ano anterior ou lá quando foi e manter a voz não foi das coisas mais brilhantes que já fizeram. Duas guitarras, uma bateria e um vocalista numa formação competente que não causou nem dança nem danos (atentem na tradução do nome para português, fixe, não é?). Uma pose muito cool, muito fashion, que dá muita parra e pouca uva. Mas não deixam de ser competentes, enquanto um dos guitarristas vai brincando com a sua voz ou assobios ou algo parecido e o outro anda para cima e para baixo da guitarra em riffs esqueléticos interessantes. Não têm baixista, que poderia talvez ser uma boa adição, para dar um pouco de groove à mistura e pôr, realmente, os putos a dançar. A perda é deles, não é nossa.

© Luís Bento

Os Grabba Grabba Tape vestem-se de ietis cor-de-rosa, são dois e têm dois teclados e uma bateria. E vêm do Inferno. Dizem que vêm da terra de Oz, ou uma história qualquer parecida, mas não vêm. Vêm directamente do Inferno. Se forem ver nos livros, só há ietis cor-de-rosa no Inferno. O baterista é totalmente maníaco, mas só em palco. Antes e depois do concerto não conseguiu disfarçar a sua identidade, era o homem com o chapéu. E andava por lá, não tímido, mas não se fazia notar, a não ser, é claro, por causa do chapéu. Mas isso não interessa. Melodias básicas num dos sintetizadores, tocadas por uma mão enquanto a outra controlava o vocoder com os barulhos que a voz do baterista fazia. As pessoas passavam pela rua, olhavam pela janela da Galeria Zé dos Bois, e muitas delas ficavam lá a admirar. "O que raio se passa aqui?", pensavam elas, curiosas; algumas ficavam e outras fugiam a sete pés. Não interessava muito, mas por alguma razão que só ele sabe, o baterista gostou da brincadeira e antes de se ir embora atirou-se contra todas as janelas da sala e disse adeus aos transeuntes. Não pagam, vêem o concerto de graça e ainda levam um adeus do tipo. Mesmo que não soubessem, estas eram pessoas com sorte. Musicalmente anda tudo pelo mesmo, melodias infernais e repetitivas e uma bateria totalmente maníaca em temas curtos e viciantes. Ao que parece, não têm nada editado e talvez seja para o melhor, nem quero saber a que é que aquilo soa em estúdio.

© Luís Bento

Como se dois ietis cor-de-rosa não fossem festa suficiente, as estrelas da noite foram os Ginferno. Temos dois guitarristas e um baterista. O baterista senta-se numa grade da cerveja Sagres com a bateria montada no chão, estando alinhado com os outros dois músicos. Os Ginferno tanto podem estar a dar-nos a banda sonora de um qualquer western, de uma qualquer tourada (fixem isto) ou de um qualquer filme de surf como podem estar a sugar-nos para dentro da turbina de um avião, tudo isto numa questão de segundos e um pára-arranca delirante. Uma guitarra dá a base rítmica, a outra vai andando por lá, alternando entre Dick Dale e Kerry King e a bateria sempre a dar-lhe, à falta de melhor expressão. De vez em quando param para gritar qualquer coisa imperceptível e voltam a arrancar. E param outra vez. E gritam outra vez. E pronto, esta podia ser a receita para um grande concerto, mas não bastava. Um tipo asiático é chamado no último tema antes do encore para dançar flamenco naquele que parece ser o maior êxito da banda (tem uns "La La La" que uma dúzia de pessoas sabiam acompanhar). Tem uns cornos e finge que é um touro ou algo parecido. É impossível conter o riso. Os Ginferno inventaram o surf-western-tourada-noise-salganhada, e isso só pode ser bom.

© Luís Bento

Três bandas pequenas a dar três concertos extremamente curtos numa noite que resultou bastante. Se os concertos tivessem durado mais tempo, é indiscutível que o efeito novidade se iria desvanecer, mas a organização teve isso em conta e agiu bem. A sala podia estar um pouco mais bem composta, mas até tinha alguma gente. Antes houve um jantar ou uma coisa parecida com bolos, cerveja e afins dados pela Veggie Lunch-Box e o ambiente de festa esteve sempre patente. Até havia balões na sala, com os quais as crianças brincavam. Muitas vezes eram até atirados para cima do palco, enquanto as bandas tocavam. Mas ninguém parecia importar-se, nada disso interessava. A ZDB afirma-se cada vez mais como o espaço para concertos por excelência das bandas pequenas em Lisboa, e iniciativas destas só devem ser apoiadas e louvadas.

À porta, após comprar os bilhetes, a organização da Kid City oferecia um saquinho com dois rebuçados e uma mascarilha, com um papel a dizer "Para ti que deitas lasers dos olhos". Quem ia em missão oficial não recebia o tal saquinho. Oh vida cruel, eu não deito lasers dos olhos! E tu, deitas lasers dos olhos?

· 21 Jan 2005 · 08:00 ·
Rodrigo Nogueira
rodrigo.nogueira@bodyspace.net

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