Pluto
Santiago Alquimista, Lisboa
09 Dez 2004
© Luís Bento

Seria interessante realizar um estudo sociológico que tentasse explicar o porquê de, já de há vários anos para cá, as mais importantes bandas rock nacionais virem do Norte do país. Enquanto permanecemos na ignorância quanto ao que motiva esta verdade inabalável, vamos recebendo (com agrado) as visitas da armada nortenha. Desta feita, foi a vez dos Pluto.

Manel Cruz, vocalista/guitarrista do grupo, tem anos de estrada e estúdio com a sua banda anterior, foi o maestro de um álbum incontornável na história da música moderna portuguesa e por isso já merecia uma estátua ou uma rua com o seu nome. A esse disco segue-se Bom dia, registo de estreia deste novo projecto, bem recebido junto do público (entrou para essa coisa nebulosa que é o top de vendas discográfico e tudo). É portanto curioso que, com este currículo, o carismático líder se apresente em palco, num Santiago Alquimista à pinha, transfigurado num puto nervoso. As mãos tremem-lhe, anuncia que não está nada nervoso, nota-se à distância uma certa insegurança.

O que vale é que começando a tocar, não há tremedeira que vença, mesmo face à adversidade de uma corda partida logo nos rounds iniciais e consequente troca-baldroca (que acaba por se revelar acto falhado) de guitarras. Cedo se percebe que a multidão que ali se apresenta é na sua maior parte composta por fãs acérrimos, quer da música quer do ícone – não foram poucas as vezes que berros de “és lindo” se fizeram ouvir, sempre agradecidos pelo bem-humorado vocalista. Mas vamos ao que interessa.

"Segue-me à luz" (novo hino benfiquista) abriu caminho a 14 doses de palavras bonitas, acompanhadas na sua maior parte por descargas eléctricas possantes, e cantadas a plenos pulmões por um número surpreendente (ou não) de pessoas. O último single, "Entre Nós", aparece cedo, "A vida dos outros" chega mais lá para a frente com Peixe, o outro ex-militante daquela tal banda, a exibir virtuosismo. Diga-se que nas canções que desfilaram no Alquimista é notório o cunho do guitarrista solo, e a composição de palco dos Pluto concede-lhe espaço de destaque do lado esquerdo, deixando Manel no outro canto, o gigantesco Rui Lacerda na bateria ao centro e um Eduardo Silva contido no baixo. A temperatura da sala aumenta quando Manel larga a guitarra e passeia desvairadamente pelo palco numa das interpretações mais explosivas da noite - "Lição de adicção" - sabe bem, pois.

E é aqui que acontece. É aqui que um disco para o qual é precisa uma certa paciência (já que não se revela um prazer instantâneo, é preciso cavar para encontrar a minhoca... salvo seja), se revela em toda a sua intensidade. Não foi a primeira nem segunda vez que vi os Pluto actuarem ao vivo (ok, foi a terceira), mas foi a primeira em que o resultado final fica gravado na memória como um espectáculo de rock fluido a repetir sempre que possível, e não como uma noite de altos e baixos. "Só mais um começo", single de apresentação do disco e talvez o melhor single nacional do ano, mata qualquer réstia de dúvida que ainda lutasse por um pouco de atenção.

Já perto do fim do concerto, antes de "Bem vindo a ti", alguém do meio do público dá as boas vindas a Manuel Cruz - "és sempre bem vindo aqui." É uma ideia que partilho. Sê bem vindo à cidade, rapaz. A um outro mundo onde o tempo parou.
· 09 Dez 2004 · 08:00 ·
Luís Bento

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