Rufus Wainwright
Aula Magna, Lisboa
13 Nov 2004
© Luís Bento

O mundo está à espera de um querer. "Waiting for a want", o último EP de Rufus Wainwright, mostra isso mesmo. O seu disco anterior, "Want One", encontra sucessor em "Want Two" - um trabalho que sai nos EUA no próximo dia 15 de Novembro mas só chega a Portugal em Fevereiro. Nada disto impede Rufus Wainwright de, na sequência de uma digressão europeia, dar um saltinho e um ar da sua graça a Portugal. Rufus Wainwright apresentou-se no dia 13 de Novembro de 2004 duas vezes em Lisboa. Uma à tarde e uma à noite. Sempre a horas, o raio do catraio. Nunca se atrasou. Às 4 da tarde, na FNAC do Chiado, estava lá ele, sozinho com a sua guitarra - que nem sequer é a sua melhor amiga, já que não a trata com o carinho e atenção devidos - para cantar quatro temas. Entre os temas, o catraio, que já passou a barreira dos 30, ia falando, comunicando com o público. Um tipo simpático, carismático, que sabe entreter e criar uma ligação com o público. Às 10 da noite, na Aula Magna lá estava o homem outra vez, desta feita para mais uns quantos temas, e agora também com um piano.

O catraio é filho de uma lenda do folk, tem uma grande voz, um belo registo agudo e escreve grandes canções. Onde é que já ouvimos esta descrição? Há uns 10 anos, esta era a descrição de Jeff Buckley - que é alguém que Rufus Wainwright admira. Mas se Jeff Buckley era filho de Tim Buckley, um génio louco, Rufus é filho de Loudon Wainwright III, algo mais comedido e com a vantagem de ainda estar vivo. Seguem ambos as pisadas dos pais, mas entretanto tornaram-se mais facilmente reconhecíveis. Jeff Buckley já morreu, e quem viu Rufus Wainwright ontem podia jurar que o seu fantasma ensombrava a coisa toda. Rufus gosta de gente que já morreu, daí ser fã da Europa. Conta-nos como uma noite conheceu Jeff Buckley e um mês depois este morreu. Foi nadar num lago a meio da noite e o resto já se sabe - desapareceu. "Memphis Skyline", de "Want Two", é sobre Jeff Buckley. Já "Matinée Idol", do disco "Rufus Wainwright", era sobre River Phoenix. Rufus tem um fascínio estranho por meninos bonitos com um lado homoerótico que morreram jovens. Estas duas canções são capazes de comover qualquer um. Mesmo desprovidas dos arranjos e orquestrações dos discos, continuam a ser grandes canções. É isso que Rufus Wainwright tem de excepcional: é um grande escritor de canções. E ganham vida ao vivo, mesmo que só esteja lá um tipo e um piano ou uma guitarra. Aquela voz faz destas coisas. E que bela voz que é. O fantasma de Jeff Buckley aparece por completo naquele momento em que "Memphis Skyline" acaba, as pessoas batem palmas, e sem interrupção começa "Hallelujah", de Leonard Cohen. Ele estava lá algures dentro da Aula Magna, ninguém sabe bem onde, mas estava lá. Toda a gente sabe que "Hallelujah" só acordou quando Jeff Buckley pegou naquilo. De repente, toda a gente percebeu que era uma grande canção. Rufus brinca, viu KD Lang a cantar isso na televisão e acha que está a ficar demasiado exposta - transformou-se numa canção que os homossexuais usam para mostrar a sua fé.

Rufus Wainwright, a criança bonita, não esconde as suas convicções, os seus medos, as suas crenças e as suas orientações - políticas ou sexuais. Explica-nos que tem medo, agora com a reeleição de Bush e com a religião levada ao extremo nos EUA. Viu um documentário na CNN antes do concerto, sobre os evangélicos. Para ele, os terroristas não são o inimigo - as mulheres e os homossexuais é que são. Muita gente critica os artistas por falarem abertamente de política, por tentarem mudar o mundo. Mas se é isso que eles sentem, porque não fazê-lo? Rufus Wainwright é homossexual, e não tem vergonha de mostrá-lo. O que diz, diz com piada.

Temas como "Harvester of Hearts", "California", "11:11", "Vibrate", "Greek Song", "Cigarettes & Chocolate Milk", "Poses" ou "Go or go ahead" enchem as medidas àqueles que os ouvem ao vivo. Com direito a dois encores, este foi um belo espectáculo. Apenas um tipo, sentado ao piano ou levantado, na guitarra, a cantar as suas canções, sempre com tudo no sítio, com uma colocação de voz brilhante. De vez em quando, historiazinhas e piadas. Não era suposto resultar. Com demasiados problemas no som, não devia ter resultado. Mas resultou. O mundo está à espera de um querer, o mundo está à espera de Rufus Wainwright. E lá esteve ele, por pouco menos de 2 horas, a trazer fantasmas à Aula Magna, num dos mais bonitos concertos do ano.

· 13 Nov 2004 · 08:00 ·
Rodrigo Nogueira
rodrigo.nogueira@bodyspace.net

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