OvO + Mécanosphère
Maus Hábitos, Porto
24 Set 2004
O sangue está em alta nos Maus Hábitos. Depois da performance de Justice Yeldham and the Dynamic Ribbon Device, que espalhou sangue e vidros pelo chão da sala, Scott Nydegger, mais comedido, faz pequenos cortes na sua careca com um copo ou uma garrafa perdida que tratou de partir. Não que este pormenor seja relevante em si mesmo; pretende antes revelar a "fisicalidade" - empregue-se um neologismo, à falta de expressão portuguesa - que emana de um concerto dos Mécanosphère, organismo intrinsecamente mutante, colectivo único na música avant-garde portuguesa e internacional. Interessa dizê-lo porque da extensa programação musical do espaço que tem procurado trazer outras músicas para a cidade do Porto, os concertos dos Mécanosphère têm sido sempre memoráveis.

Já aqui se escreveu que Mécanosphère é percussão, animalidade, primitivismo e futurismo, em choque de contrários permanente. É tensão, tensão de Adolfo Luxúria Canibal, esquizofrénico, quase sempre imperceptível na leitura aleatória de excertos de Voltaire e Sebastião Alba, tensão de duas baterias percutidas ao acaso, em estruturas que derivam do free jazz, mas também do industrial, do hardcore, do tribal. A electrónica de Benjamim Bréjon traz o hip-hop cerebral, em beats desconexas. Scott é performance pura, até porque raras vezes a sua beatbox é ouvida. Pouco interessam os problemas técnicos: o que retemos de Mécanosphère é uma inquietude que perpassa toda a actuação, uma espécie de ribombar caótico que impele o ouvinte, sem indulgências auto-justificativas.

Menos entusiasmantes, mas também poderosos, foram os italianos OvO que abriram a noite. Duas pessoas em palco: Stefania Pedretti e Bruno Dorella. A primeira parece uma freak tirada do Chapitô, de rastas enormes, vestido rosa, máscara, meias de rede. O segundo, vestido à monge, igualmente mascarado, munido de bateria minimal (timbalão de chão, tarola, prato, sem uso de qualquer pedal) e muitos pares de baquetas para substituir as muitas outras que voam.

Nos primeiros temas, Stefania e Bruno mostraram-se como uma proposta interessante, entre a no wave e o industrial dos Einstürzende Neubaten. Stefania massacra a guitarra com um brinquedo de plástico que servia de palheta, sem qualquer conhecimento técnico do instrumento, enquanto que Bruno investe em ritmos marciais, cavalgantes e demolidores. A voz de Stefania, distorcida, totalmente indistinta, chegou a lembrar guturais próximos do death metal.

Na segunda metade do concerto, os OvO foram menos directos e, em certos momentos, mais aborrecidos. Stefania fez das suas rastas instrumento manuseado pelo arco de violino e Bruno ocupou-se a brincar, prostrado no chão, com pedais de efeito, sobre a voz ou violino. Ao longo de todo o concerto, Bruno ia atirando com pratos para o chão, na mais pura tradição avant-garde de atiçar a tensão (controlada) entre banda e público. Ninguém se magoou, mas poucos terão ignorado o concerto dos italianos.
· 24 Set 2004 · 08:00 ·
Pedro Rios
pedrosantosrios@gmail.com

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