Mécanosphère
Maus Hábitos, Porto
29 Abr 2004
Primeiro surgiu Benjamin Brejon, calmo, para, através de complexa maquinaria, lançar as primeiras beats e texturas sónicas nas colunas estrategicamente colocadas pelo palco e em cima do longo piano preto que, embora imóvel, se viu obrigado a estremecer durante todo o concerto. Depois seguiu-se LePiloteRouge, o francês que se encaminhou para a bateria principal que até partilhava alguns pratos com a segunda que, a seu lado, serviria para ser potenciada pelas mãos de Benjamin Brejon. Adolfo Luxúria Canibal, que envergava uma camisola de Nus, registo último dos Mão Morta, e Scott Nydegger, depois de se passearem pela plateia, entre as pessoas, subiram a palco e encetaram uma dança estranha, de movimentos lentos. Scott Nydegger trazia duas baquetas na perna e no peito, presas por duas tiras de fita adesiva pretas; contorcia-se, mordia as baquetas, pleno em raiva. Adolfo Luxúria Canibal tomou a posição que lhe é mais comum: a frente do palco e, consequentemente, o microfone.

Ouviu-se então poesia da voz de Adolfo, que vociferava verdadeiras odes que discerniam a vida da morte. Falou-nos da carne, de anomia, de desordem, revolta. Da combustão das máquinas, do frio dos autómatos que, sem vontade própria, se arrastam para lá daquilo que é tangível. Caminhou pelos estilhaços, por terrenos de poças de sangue, e pequenos objectos cortantes feitos de metal. Abriu ainda mais feridas que teimam em não fechar. Furou o tapume negro que encerra a floresta da loucura. Demarcou a barreira do estoicismo, do niilismo. Remexeu nas entranhas, incitou verdadeiros redemoinhos viscerais e pôs em marcha a locomotiva bizarra que é a música dos Mécanosphère. Tossiu loucamente, berrou com razão aparente. Amarrou o fio do microfone em volta do seu pescoço para depois o puxar violentamente pelas suas extremidades enquanto tentava berrar, quase como se se esganasse. Exprimia fisicamente toda a dor que transparecia das suas palavras em movimentos imprimidos pela raiva. Scott Nydegger partilhava da mesma expressão de loucura. Com o seu olhar profundo e focado, aproximava-se das pessoas enquanto exibia sinais de exaltação. É a expressão dos sinais mais obscuros do subconsciente na sua forma mais extrema. Scott Nydegger passeava-se pelo meio do público, segurando peças de bateria que, com uma baqueta, ganhavam vida, ou permanecia em palco segurando, por vezes, uma baqueta que exibia na sua extremidade uma estrela cor-de-rosa que fazia um reflexo para onde fosse que estivesse apontada. Quando não era preciso, LePiloteRouge fumava um cigarro com os pés em cima da bateria. Benjamin Brejon é incansável.

Impressionante, a máquina de percussão que os Mécanosphère representam. Este facto foi especialmente evidente numa peça de cerca de dez minutos onde todos os elementos do quarteto batiam com as baquetas em qualquer local onde fosse possível (piano incluído). Nesses dez minutos, o caos foi propagado em proporções tais que se tornou impossível medir as consequências. No final do concerto, os sinais de destruição e caos eram evidentes até no material utilizado pelos Mécanosphère. Mas, na verdade, onde se notava maior instabilidade era no seio da plateia que tinha acabado de assistir a uma actuação fantástica; algo similar a um furacão que destrói tudo por onde passa.
· 29 Abr 2004 · 08:00 ·
André Gomes
andregomes@bodyspace.net

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