Clã
Queima das Fitas, Coimbra
10 Mai 2004

Uma noite de parque na Queima das Fitas de Coimbra pode ser sinónimo de muita coisa - de um serão de abana-anquina nas barracas de shots, de uma noite numa fila interminável à espera de entrada, de umas horas de colaboração na construção de um lamódromo, de uma noite de desportos radicais ou ainda de uma sessão longa de produção e consumo de charros. De vez em quando, alguns estudantes lembram-se de reunir em volta de um palco - o principal ou o da Rádio Universidade de Coimbra - e vêem uns concertos. Entre os da noite de segunda-feira, há um que claramente se destaca, o dos Clã.

© Francisca Moreira

A noite de segunda-feira já vai longa quando o sexteto portuense sobe ao palco. Para bem dos Clã e do público presente, o reencontro - depois de algum tempo de jejum - não sofre de quaisquer limites de extensão, visto Rui Veloso ter antecedido a sua actuação. A abrir, há “GTI” versão lounge e fugaz, com Manuela Azevedo - qual diva jazz - a soletrar os sonhos dos seus amigos, enquanto Pedro Rito viaja, descontraidamente, os dedos pelo seu baixo eléctrico. Poucos minutos depois, teríamos um cenário mais recheado, já com o clã completo a entoar “Carrossel dos Esquisitos”, um forte condidato - de teor pop com uma viciante linha melódica de sintetizador - a próximo single de Rosa Carne, o mais novo rebento da banda.

E se Rosa Carne é um passo em frente na carreira dos Clã e desenvolve ambientes mais intimistas e complexos do que os experimentados em Lusoqualquercoisa, Kazoo ou Lustro, ao vivo - talvez porque numa circunstância especial de espectáculo - os Clã parecem não quererem ainda piscar o risco. Apesar de apresentarem um lote de mais de meia dúzia de temas novos, à excepção de alguns momentos, não se sente nos Clã live a atmosfera que desenharam no novo registo. Mas nem por isso deixaram de, em mais de uma hora e meia de actuação, construir um concerto memorável e cheio de momentos gigantescos que, em território nacional, correspondem ao mesmo do que atribuir aos Clã o prémio de melhor banda ao vivo, sem grandes reservas.

Entre as descargas eléctricas de funk-rock-industrial em "O Meu Estilo", do rock efervescente em "Fahrenheit" ou em "Corda Bamba", há tempo para o desenrolar da delícia ambiental que é "Competência para Amar", desta vez sem Amália Rodrigues a cantar-nos "não queiras gostar de mim". O batido pop-quase-kitsch-com-água-na-composição chamado "H2omem" tem direito a coreografia e a um lapso de Manuela Azevedo na condução da dança. A ela, o centro das atenções da noite, tudo o público desculpa.

Os novos "Topo de Gama" - drum'n'bass em guitarras rock -, "Eu Ninguém" - swingante q.b. -, "Uma mulher da Vida" - pop-rock colorido - ou "Aqui na Terra" - o tema mais pjharveyano do repertório dos Clã - ganham ao vivo uma força amplificada. O público parece apreciar, mas é nos mais velhinhos "Sangue Frio" e no já de todos "Sopro do Coração" que faz elevar a sua voz até ao céu. A versão a guitarra acústica de "Capitão Romance" - também imensamente aplaudida - dos já extintos e amigos Ornatos Violeta candidata-se seriamente a melhor momento da noite.

Já nos encores, numa meia hora na qual os mais apaixonados pelos Clã não os querem deixar ir, "Problema de Expressão", "I'm Free" (dos Rolling Stones) e "Crime Passional" - vermelho escuro e sexual a combinar com a letra de Adolfo Luxúria Canibal dos Mão Morta - servem apenas para reconfirmar o brilho que os Clã nos vêm mostrado desde o início da sua carreira. "GTI", em jeito rock, fecha um festim repleto de momentos exímios.

· 10 Mai 2004 · 08:00 ·
Tiago Carvalho
tcarvalho@esec.pt

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