Massive Attack
Coliseu dos Recreios, Lisboa
22 Mai 2003
“Automatic crystal remote control, they come to move your soul”. Dito e feito. Os Massive Attack regressaram a Portugal, onde deixaram saudades desde que, corria o ano de 1998, proporcionaram ao Pavilhão Atlântico a noite mais feliz da sua curta existência. Cinco anos volvidos, Robert “3D” del Naja assume-se muito mais como o rosto do colectivo, sublinhando mais forte o carácter de apelo à consciencialização social do ser humano que sempre respirou por baixo do nome Massive Attack.
Dizer que as quatro mil pessoas que lotaram o Coliseu dos Recreios assistiram a um concerto genial ou irrepetível seria, porventura, exagerado; porém, poucas das almas presentes irão esquecer a experiência. Desde o instante em que 3D soltou as primeiras palavras de Future Proof até aos últimos – inevitáveis - arrepios que qualquer interpretação de Unfinished Sympathy causará pela eternidade fora, não raras vezes a atenção da plateia se desviou para os brilhantes motivos que se sucediam vertiginosamente por detrás dos músicos. Destaque para Risingson – um dos momentos mais altos da noite – que era debitada por del Naja e Daddy G na frente do ecrã que multiplicava incessantes interrogações: “Terá sido por causa do petróleo? Terá sido por Israel? Quantos danos colaterais foram causados? Será o mundo um local mais seguro?”. Também não ficaram em Inglaterra os alertas para os perigos da “centésima janela” (leia-se “internet”) e da exposição da privacidade a que o dia de hoje obriga, literalmente, todo e qualquer um. Para deleite (ou não) do patriota, desfilaram ainda os principais tópicos da actualidade portuguesa resumidos por palavras-chave como “UEFA” e outras não tão agradáveis, sendo que até o estado do tempo, os horários dos aviões e dos comboios puderam ser consultados por qualquer fã que estivesse longe de casa. Afinal, Sevilha não foi o único destino de peregrinos nos últimos dias.
O alinhamento terá feito as delícias de toda a gente; duas horas exactas de digressão por todos os grandes sucessos da carreira do colectivo, intercalados esporadicamente por algumas faixas do recente “100th Window”. Apesar da sensualidade que transpirou, Dot Allison nunca levou a melhor nas vezes de Liz Fraser ou Sinead O’Connor (salvou-se Teardrop), tendo estado muito mais feliz neste capítulo Debbie Miller, excelente na abordagem a Hymn of the Big Wheel, Safe From Harm e Unfinished Sympathy. Os veteranos Daddy G e Horace Andy (“Horáciooooooo!!!”) não tiveram a mínima dificuldade em fazer as delícias da assistência – Horace sabe que não tem que temer nenhum Everywhen ou Name Taken enquanto existir Angel.
O termómetro só baixou, precisamente, em alguns períodos “100th Window”. Como se esperava, a transição do novo material para o palco não foi processo fácil, nem sequer muito bem sucedido, tendo valido a abordagem mais colada ao rock para salvação de uma ou outra fase mais entediante. Todavia, o facto de ter vindo pouca papinha pré-cozinhada de casa permitiu fortes descargas de energia veículadas pelo guitarrista e pelo incansável baterista que, em conjunto com o entroncado baixista, assegurou toda a pujança indispensável a qualquer interpretação assinada “Massive Attack”.
Em suma, Lisboa voltou a assistir a uma demonstração do carisma da mais incontornável referência musical da década de 90. E fica reforçada a certeza de que, no dia em que desiludirem, os Massive Attack saberão fazê-lo com estilo.
· 22 Mai 2003 · 08:00 ·
Carlos Costa

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