Mécanosphère + Steve Mackay Radon Ensemble
O Meu Mercedes é Maior Que o Teu, Porto
02 Abr 2004
© Pedro Rios

O Dicionário da Língua Portuguesa (7ª Edição, Porto Editora) define "percussão" como o "acto ou efeito de percutir; pancada; embate; choque". O concerto (ensaio/performance/jam contínua) do combo Mécanosphère + Steve Mackay Radon Ensemble explorou esta definição dupla - foi um choque, um ribombar contínuo, por força dos vários pares de baquetas que batem simultaneamente numa bateria, num bombo solto, em pads e máquina de beats. Único tingimento melódico (mas igualmente dissonante) na pintura rítmica: o saxofone do lendário Steve Mackay, o mesmo de Funhouse dos Stooges. A voz de Adolfo Luxúria Canibal surge como um manto, quando cavernosa e contadora de histórias, ou como exteriorização de loucura quando envereda por uma sequência de onomatopeias (animais? vozes em dor? diálogos mudos?).

A performance - o termo "concerto" é desadequado - de ontem é irrepetível. Em palco, músicos experientes da música "conceptual" seguem-se uns pelos outros, sem que alguém tenha a voz de comando. Ora é o tribalismo de Sam Olhman, Le Pilot Rouge e Scott Nydegger (careca de barba ruiva e olhos ameaçadores fixados no público) que sugere frases no saxofone de Mackay, ora são os beats de Benjamin Brejon (tentativa de categorização à matéria electrónica: hip-hop profundo, arrancado às entranhas e aos batimentos arrítmicos do coração) que impelem ao descontrolo dos outros elementos e à esquizofrenia onomatopaica de Adolfo. Ou então, nada disto e antes um constante jogo de improviso, de deslumbramento de trabalhar sem rede, de criar beleza dos cacos. Esta é uma música de destroços, de restos e estilhaços que formam, paradoxalmente, uma ossatura sólida.

Adolfo vai contando histórias surrealistas de estudos sobre as zonas erógenas do automóvel, sobre orgasmos involuntários, sobre choques orgásmicos entre um Rolls-Royce e uma carroça, mais orgasmos, mais sexo, mais violência contida. Noutros "temas", Adolfo incarna animais ou esquizofrénicos, num debitar ofegante de sons sem sentido, ou com o sentido único de manifestar inquietude. É nessa postura que o projecto Mécanosphère - estrutura livre e aberta a colaborações como esta - mantém pontos de contacto com os Mão Morta.

Nem rock, nem (free) jazz, nem electrónica, nem tribalismos. Ou tudo isso, fundido, numa coisa nova, num som que é verdadeiramente "free", musical e fisicamente. Os músicos saem do palco, dançam entre o público, repousam encostados à paredes enquanto percutem (sempre) algo ou o próprio granito da parede.
Um urro final de Adolfo feriu os tímpanos das pessoas que encheram o Mercedes. Não sabíamos quanto tempo tinha demorado o concerto. E o que é que isso interessa?

· 02 Abr 2004 · 09:00 ·
Pedro Rios
pedrosantosrios@gmail.com

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