Deerhoof / Alla Polacca
Porto Rio, Porto
05 Jun 2006

Os Deerhoof são uns fofos. Os Deerhoof são a banda perfeita: são noise mas não se masturbam ali à nossa frente; são pop mas não há ponta de gordura, só sonhos infantis conspurcados pela sapiência dos adultos e, por isso, olhados por ângulos travessos; são rock avesso a normalidades mas, mesmo assim, orelhudos. São, muito justamente, uma das mais interessantes bandas do rock independente actual. Os discos diziam-nos isso, esperávamos o concerto para tirar teimas ou confirmar o amor.

Deerhoof © Ana Sofia Marques

Umas 150 pessoas deslocaram-se ao Porto Rio, o barco mais rock’n’roll do país, para ver os norte-americanos, agora reduzidos a um trio, depois da saída amigável de Chris Cohen. A altura não podia ser mais acertada: vê-los em Portugal em 2006, depois de um álbum tão maduro como The Runners Four, só podia ser motivo de festa e de muita expectativa.

O escasso palco do Porto Rio realçava a pequena estatura da deliciosa Satomi Matsuzaki (voz e baixo), mas sobretudo o talento de Greg Saunier, verdadeiro “animal”/cavalheiro atrás da sua minimal bateria (um prato, o bombo de pé e uma tarola chegam para o estardalhaço constante). Impressionou a forma como Saunier introduz novos elementos na bateria, inventa caminhos que aparentemente vão dar mal resultado mas se safa sempre por cima. John Dieterich, agora responsável único pelas seis cordas, torna ainda mais afiados os riffs que conhecemos dos discos (isto quando não os destrói parcialmente) - a maravilha “Spirit Ditties of No Tone” saiu perfeita e se não dançou mais gente é porque a carga indie ainda ensombra muitas mentes.

Deerhoof © Ana Sofia Marques

Foram deliciosamente simples com “Flower” ou na marcha para desenhos animados que é “Dog on the sidewalk”. “Running thoughts”, do último disco, não sofreu com o emagrecimento (adeus teclados prog, olá power trio eficaz). Repescaram “Gore in rut” ao velhinho The Man, The King, The Girl (1997), com Satomi a pousar o baixo e a passear-se junto à primeira fila e a incarnar o coelho de que tanto fala (“bunny, bunny, bunny, bunny, bunny, bunny", repitam com ela). Souberam ainda surpreender, antes do encore, com um aturado exercício stoner que consta de uma compilação da Kill Rock Stars, segundo confidenciou ao Bodyspace Dieterich no final do concerto, e que os Melvins não desdenhariam. “Meninos” Deerhoof , regressem depressa.

Antes dos norte-americanos, os portuenses Alla Polacca mostraram a sua nova formação, sem teclados e com um novo baterista. Confirma-se o lado mais rock anunciado e descobre-se um emagrecimento que é favorável ao grupo - não raras vezes os sintetizadores tornavam o som do grupo algo redundante e carregado. Leonel Sousa assume cada vez mais protagonismo na voz, mas não escapa à associação quase imediata a Thom Yorke, e há ainda algum trabalho de maturação a ser feito. Os Alla Polacca em Junho de 2006 assumem a influência do pós-rock vertido em canções mais agressivas mas nem sempre com recursos para se evidenciarem.

· 05 Jun 2006 · 08:00 ·
Pedro Rios
pedrosantosrios@gmail.com

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