Mono
O Meu Mercedes é Maior Que o Teu, Porto
26 Mar 2004

Takaakira "Taka" Goto, o guitarrista principal dos japoneses Mono, já tinha avisado: “Quando a audiência é pequena, tornamo-nos mais violentos. Tentamos matá-los com o som”. Ora, quem conhece o Mercedes (que hoje mais parecia um carro japonês) sabe que as dimensões do bar são bastante reduzidas, e quem lá esteve para o concerto de bom grado admitirá que uma violenta onda sonora abalou as hostes durante cerca de uma hora. A actuação, que estava marcada para as onze da noite, começaria com cerca de duas horas e meia de atraso, o que fez com que, automaticamente, os Mono tivessem de se esforçar ainda mais para agradar a uma plateia que aguardava ansiosamente a entrada em cena. Takaakira "Taka" Goto (guitarra), Tamaki (baixo), Yasunori Takada (bateria) e Yoda (guitarra) entraram no palco mudos e quedos e da mesma forma o haveriam de deixar. Raramente olharam para o público, não trocaram nenhuma palavra entre si e muito menos para a audiência e carregaram sempre na face aquela expressão séria e sensata de quem sabe, melhor do que ninguém, aquilo que se iria passar. Em frente do palco, uma quantidade absurda de pedais e parafernália electrónica. No chão, nem sinal havia de uma set list ou algo que lhe valesse.

© Marisa Alves

Como provisão, os Mono traziam dois discos de originais: Under the Pipal Tree, que data de 2001 e que teve como produtor John Zorn, e o mais recente registo, One Step More and You Die, editado em Abril de 2003. Ambos levam a efeito aquilo que comummente se apelida de “bota acima, bota abaixo”, mas o povo gosta e agradece. Aos primeiros acordes, é impossível não se formar nas nossas cabeças um pequeno triângulo negro, onde em cada extremidade se avista um nome. Mogwai no primeiro, Godspeed You Black Emperor! no segundo, e para finalizar, Explosions in the Sky no terceiro. No centro do triângulo, pitadas de Sonic Youth qb e um piscar de olhos ao noise rock. Por isso mesmo, fazer uma review a um concerto de uma banda deste género sem mencionar as expressões “parede sonora”, “explosão caótica” ou “teias de aranha formadas pelas guitarras” revela-se uma tarefa faraónica.

Canções como “The Kidnapper Bell” ou “Halo” exploram a tensão de forma exemplar: as canções não são profundamente construídas porque acabam rapidamente no caos, em imensa exaltação. Ao contrário dos seus "colegas de carteira", os Mogwai, os Mono vão directos ao assunto naquilo que é a criação de uma mancha nebulosa de sons indiscrimináveis, onde vão sendo acrescentadas camadas e mais camadas de um som denso e compacto. Os Mono conseguem introduzir sempre mais um pouco de distorção onde se pensava já não caber mais, e, de repente, forma-se um som de tal maneira cerrado que é impossível discriminar a vibração de cada instrumento.

No intervalo de cada música, o guitarrista principal tirava a voltava a colocar a guitarra, como se de uma arma se tratasse. Ambas as guitarras, ainda em recuperação, eram afinadas, de canção em canção, para que se pudesse iniciar outro ataque. A baixista, sensual e voluptuosa, de sapatos cinderela vermelhos, saia preta e blusa às flores segura um instrumento que, na verdade, possuía um braço maior que os seus, tal era a sua magreza. Mas, e quando as canções se desenvolviam em irascível erupção, mostrava-se tão determinada quanto o baterista que, tapado pelas colunas, se mexia de forma intensa. Em frente, os dois guitarristas davam o mote. Mas na verdade, as canções dos Mono não se fazem só do famigerado “vai acima, vai abaixo”. Há também canções como “Sabbath”, responsável pela produção de ambiências cadenciosas, taciturnas, onde a quietação substitui, por uma vez que seja, a sequência predominante. Na realidade, a música dos japoneses não sugere apenas destruição, miséria, o Apocalipse; faz nascer no espírito também esperança e, de certa forma, redenção. Incrível a fidelidade que resiste no transportar das canções do formato estúdio para o formato live, quer no que diz respeito à similaridade de estruturas, quer na produção das sonoridades.

Em “Where I am”, predomina a doçura da junção de uma guitarra com um xilofone (quase nem se sentiu a falta do violino que se ouve na versão original) e prepara-se o fecho da noite, pois de seguida é apresentada “Com(?)” que, como seria de esperar, proporciona a maior deflagração de toda a actuação, que deve ter durado cerca de dez minutos. No fim, Takaakira "Taka" Goto serve-se do feedback para provocar uma ainda maior sensação de caos, e acaba o concerto deitado no chão, prostrado, abraçado à guitarra, pondo assim fim à actuação.

No fim de contas, os ouvidos de todos os que assistiram ao concerto do conjunto de Tóquio eram a testemunha presencial da grande convulsão que ali tinha acontecido. Para quem é fã das sonoridades deixa-me-construir-aqui-qualquer-coisa-na-minha-guitarra-que-explodimos-já, a noite de hoje terá sido de devoção total. Para quem já está farto da estratégia, e não ficou satisfeito com a quantidade de decibéis entoados nas paredes da "gruta" que toma sobre si a função de bar, o entupir de ouvidos assume contornos tão dramáticos como uma viagem de avião a terras nipónicas.

· 26 Mar 2004 · 08:00 ·
André Gomes
andregomes@bodyspace.net

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