Yann Tiersen
Casa das Artes, Famalicão
20 Mai 2006
Quem já conhecia Yann Tiersen em concerto não ficou espantado, mas para quem o viu pela primeira vez não terá deixado de ser uma grande surpresa: o músico francês, que deve grande parte do seu reconhecimento à banda sonora de O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (e também de Adeus Lenine), encarna em palco uma persona muito rockeira. Esqueçam grande parte das frágeis melodias ao piano ou ao acordeão que são a sua imagem de marca: Tiersen teve em Famalicão uma postura musculada, com um line up que na maior parte do concerto foi o de uma banda rock convencional: duas guitarras, baixo, bateria. O toque de especificidade estava entregue a Christine Ott, no ondes martenot, um instrumento que para além do teclado possui um anel que permite dar às notas tocadas um efeito de vibrato, fantasmagórico, como num theremin. Este viria a ser um dos grandes problemas da noite: quase todas as músicas foram sobrecarregadas com esse registo que, a partir de meio do espectáculo, já não conseguia funcionar senão como mero ruído.

Yann Tiersen © Sérgio Neto

O colectivo agrupado em volta de Yann Tiersen fez todo por soar como uma banda pós-rock (termo que com muito dificuldade lhe associamos). Mas as densas cortinas construídas pelas guitarras, a tensão constante e alguns ensaios de altos e baixos de intensidade remetiam apenas para nomes como os Mogwai ou os Logh (um bom exemplo foi “Les Bras de Mer”), facto a que não é alheia a opção maioritária pelo formato instrumental (“boicotado” algumas vezes por Tiersen, que assumiu algumas tímidas vocalizações). Quando muito, a coisa soava a pop-rock (o que não é aqui depreciativo) e a espaços até se conseguiram ouvir riffs que bem podiam ser de uma banda do dito novo rock. Há aqui que destacar o versátil guitarrista de apoio, Marc Sens (também deu a voz a uma canção, em inglês), que procurou sempre formas menos ortodoxas de retirar sons da guitarra, usando métodos mais tradicionais (pedais de efeitos) e menos tradicionais (um arco de violoncelo, uma baqueta e até um berbequim). Quanto ao alinhamento, uma boa parte dele foi dedicado a Les Retrouvailles, último disco de originais, lançado o ano passado, mas também houve muitas incursões por L’Absente e Le Phare . Das bandas sonoras, apenas uma versão (rock, pois claro) de “La Valse d’Amélie”.

Como balanço, há que reconhecer a versatilidade demonstrada por Yann Tiersen: tocou guitarra, glockenspiel, acordeão, violino, órgão e até um pequenino piano de brincar, fazendo várias demonstrações inequívocas da sua técnica. E durante o concerto houve vários momentos em que o francês esteve sozinho (ou pouco acompanhado) em palco, remetendo para o universo pelo qual o seu trabalho é mais reconhecido. Há que convir que preparar novas roupagens para apresentar temas originais ao vivo não é o caminho mais fácil, mas não teria ficado nada mal ao músico ter usado uma maior dose de intimismo e dado maior protagonismo à faceta de construtor de bandas sonoras que não remetem para outra coisa senão para o sonho. E é certo que a maior parte do público que encheu a Casa das Artes (mostrando-se sempre atento e despedindo-se efusivamente dos músicos, após dois encores) queria sonhar mais.
· 20 Mai 2006 · 08:00 ·
João Pedro Barros
joaopedrobarros@bodyspace.net

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