Sir Alice / Manta Ray / Cocorosie - Observatori 2006
Museu das Ciências Principe Felipe, Valência
05 Mai 2006
Celebrava-se no dia 5, 6 e 7 de Maio o 7º festival internacional de investigação artística de Valência (o Observatori 2006) no Museu das Ciências Principe Felipe situado na fantástica Cidade das Ciências e das Artes. Além dos concertos no cenário principal, havia ainda vídeo arte, exposições, fotografia, performance, entre outras manifestações artísticas. O cenário era inspirador: edifícios modernos (e modernistas), água em redor dos mesmos edifícios e muita gente. E foi nesse cenário que Sir Alice surgiu em palco com uma capa freak que havia de retirar - quando as batidas já se haviam instalado - para ficar bastante menos vestida. O que se passou daí para a frente havia de surpreender todos aqueles que estavam presentes – e já eram muitos. A francesa Sir Alice havia de simular wrestling com um super-homem insuflável e relacionar-se de forma menos habitual com outros bonecos, usar soutiens na cara, sair do palco e mergulhar no imenso lago que se encontrava junto, passar vídeos porno (inclusive o de Pamela Anderson) enquanto, de vestido de noiva posto, limpava o pó por todo o lado, colocar uma máscara branca e sem expressão e desfilar pela passerelle como se fosse uma modelo, usar uma coroa de princesa na cabeça e dançar em círculos como se fosse uma bailarina numa caixinha de música (com música a condizer) enquanto cantava “Like a Virgin” ou interpretar Britney Spears. Certo é que no final da actuação a roupa era menos do que nunca.

Sir Alice @ Angela Costa

Sir Alice mostrou saber perfeitamente o que quer dizer e no seu concerto/performance fê-lo com ironia e sarcasmo. Sempre com música electrónica mais ou menos corrosiva/robusta por detrás, claro está, e por vezes até burlesca ou cabarética. Valeu sempre mais o aspecto cénico e da performance do que propriamente a música que ia sendo disparada por Sir Alice nas máquinas, que pareceu servir sempre de banda-sonora para a sua actuação e para as suas mensagens. Num festival como o Observatori, a actuação da francesa pareceu fazer todo o sentido. Pelo contrário, a actuação dos Manta Ray parecia não se enquadrar muito bem nem no espírito do dia 5 (no meio de Sir Alice e Cocorosie) nem no plano geral do festival. Contudo, continuaram a apresentar o seu último disco de originais, Torres de Electricidad (Acuarela, 2006) com um pouco mais de sucesso do que no concerto na Sala Heineken no mês passado. Continuam a ser influenciados por muitos e diversos estilos musicais mas feitas bem as contas no final parecem misturar as coisas um pouco mais do que deviam. Alguns temas – especialmente na segunda metade da actuação – pareciam não levar a lado algum. O que é certo é que a legião de fãs dos Manta Ray é considerável. Eram bastantes aqueles que se movimentavam junto do palco em resposta a alguns temas com mais acentuação na palavra rock.

Cocorosie @ Angela Costa

Das Cocorosie pode-se dizer que chegavam a Valência - assim como a outros locais da digressão – com um handicap – o segundo disco, Noah’s Ark, exploração de uma fórmula já esgotada logo no primeiro disco que parece não ter sido muito bem recebida pelos fãs (suspeita) ou pela imprensa (certeza). Quando é assim é complicado dar um bom concerto e muito mais difícil se torna quando, mesmo depois de uns 30 ou mais minutos de espera para preparar tudo em palco, os problemas técnicos assombram quase toda a actuação. As manas Casady, com a ajuda já habitual de um membro em modo beatbox, seguiram maioritariamente pelo segundo disco e apenas em raros momentos voltaram a La Maison de Mon Reve (fizeram-no por exemplo em “By your Side”). De resto aventuraram-se um par de vezes pelo hip-hop (quer pela voz do beatbox de serviço (em francês), quer pela voz das próprias) e até pelo reggae. A agradável surpresa chegou com uma fabulosa versão do hit “Turn Me On” de Kevin Lyttle bastante camuflada mas não suficiente para se tornar irreconhecível. Chegaram até a ensaiar uma espécie de teatro de fantoches à volta da história do Peter Pan lida em espanhol, um momento algo singular. Feitas as contas, foi uma actuação pálida, com alguns bons momentos, mas prejudicada pela insistência no segundo disco e pelos incrivelmente persistentes problemas técnicos (nada parecia querer funcionar). Mas tudo leva a crer que só um terceiro bom disco pode dar certezas quanto a igualmente bons concertos futuros por parte de Bianca e Sierra Casady.
· 05 Mai 2006 · 08:00 ·
André Gomes
andregomes@bodyspace.net

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