Bernardo Sassetti
Teatro Maria Matos, Lisboa
06 Abr 2006
Bernardo Sassetti está na moda. Sassetti é hype. Não é exagero, se tivermos em conta que em menos de uma semana o pianista deu dois espectáculos em salas diferentes na mesma cidade e em ambos as salas estavam esgotadas. Depois do concerto integrado na Festa do Jazz do São Luiz, na passada quinta-feira o renovado Teatro Maria Matos acolheu a apresentação de “Alice”, a banda sonora do filme de Marco Martins.

“Alice”, editado no ano passado pela Trem Azul, foi fundamental para a consagração do pianista no ano transacto e mereceu, tal como o filme que esteve na sua origem, elogios rasgados. Se em “Ascent”, também de 2005, Sassetti se serviu de um duplo trio, que conjugava ambientes de clássica e de jazz numa combinação luminosa, a proposta de Alice é (relativamente) mais simples. Auxiliado por um trio menos exuberante, a atenção está concentrada no piano e nas suas voltas obsessivas em torno de um tema principal.

No filme, um pai procura a filha desaparecida. No turbilhão de gente que percorre diariamente as ruas da baixa lisboeta, o pai procura incessantemente a filha Alice, teimando numa esperança que não se apaga. Para lá da esperança forçada, uma nuvem de desencanto percorre o filme todo, pontuado pelas notas gotejadas do piano. A breve sequência de notas espaçadas serve de contraponto ao corropio de hora de ponta da cidade, ao seu ritmo infernal de gente em movimento.

É a melodia do tema principal que sustenta as várias variações que constroem a música de “Alice” (o disco e o espectáculo). Para lá do pianista, colaboram Rui Rosa (clarinete), Yuri Daniel (contrabaixo) e José Salgueiro (vibrafone e percussões). A sua presença destes é, no entanto, pouco notada, para lá de esporádicas aparições em que sublinham a intencionalidade do piano. Apesar de surgirem outras melodias, é o tema principal que surge em vários ocasiões, com particular intensidade no final. A música está toda planeada e até os (pequenos) momentos de improviso estão definidos.

Em simultâneo com a música foram projectadas no palco do Maria Matos imagens vídeo que acompanhavam a evolução do concerto. Imagens sempre em movimento, de trânsito, de pessoas a andar cheias de pressa, dissolviam-se com a música nos momentos que sugeriam mais dispersão. Quando o piano enveredava por viagens mais elaboradas, as imagens iam embora e sobrava um fundo azul onde a música ficava a música a ocupar o protagonismo todo.

Sassetti é hype. É verdade, mas não é culpa dele. Ou talvez seja. Ele aperfeiçoou a sua música e cada vez mais pessoas gostam. Quer seja através do genial “Ascent” ou deste irmão menor “Alice”, Sassetti conquista-nos. Que o hype se mantenha por muito tempo, se Sassetti continuar a fazer música sublime. E que venha a glória internacional, que é merecida.
· 06 Abr 2006 · 08:00 ·
Nuno Catarino
nunocatarino@gmail.com

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