Pelt
Casa da Música, Porto
04 Mar 2006

“Casa de Ensaios”. Era assim que se podia ler no bilhete que dava acesso ao corredor nascente (o tal de onde é possível observar a rotunda da Boavista) para o concerto dos norte-americanos Pelt, colectivo formado em 1993, discípulos de uma folk exploratória, do blues, da música indiana, das ragas, da espiritualidade - um cenário que se decidiu emoldurar na New Weird America (o selo da Wire). E faz todo o sentido. A música dos Pelt não obedece primeiramente a uma estrutura óbvia; antes, nasce pura e procura a purificação – longe da tecnologia – e uma espiritualidade que se sente a cada momento. Liderados por Jack Rose na guitarra acústica de cordas de aço, os Pelt rumaram à Casa da Música na “ressaca” do lançamento de um registo sem título, mas, como foi possível perceber no final na banca de discos, o colectivo funciona em constante movimento e multiplica-se em bastantes lançamentos.

© Carlos Oliveira

Ao contrário daquilo que se poderia pensar, as explorações dos Pelt, ragas de espírito superior, pouco viveram da guitarra de Jack Rose que só por um par de vezes – no inicio e perto do fim – se mostrou da forma que Kensington Blues a mostrava. Por vezes Jack Rose ousou mesmo explorar a sua guitarra de formas menos convencionais, retirando dela ruídos menos vulgares, mas passou grande parte do concerto envolto nas taças tibetanas, instrumento onde, por meio de uma espécie de pau de madeira que se vai rodando na sua parte exterior, se produz uma certa vibração de efeito prolongado. Uma maravilha.

Na verdade, os Pelt mostraram viver imenso das taças tibetanas que chegaram a ser quase só por si responsáveis por uma longa composição de efeito hipnótico – a certa altura eram quatro taças, nas quatro mãos dos quatro músicos. Com efeito, os Pelt assinaram uma actuação de uma espiritualidade imensa (muito por culpa das taças – perto de uma dezena - que se encontravam espalhadas pelo palco), de experimentação, de exploração. Além da guitarra e das taças tibetanas, juntou-se à mistura harmónio e fiddle (uma espécie de violino), factores essenciais para o enriquecimento do som e procura de outras vias de possível seguimento.

O contraste entre a pureza e espiritualidade que se produziam em palco e a urbanidade do cenário que se vislumbrava para lá da cortina de vidro mostrou-se tão interessante quando alguns dos momentos criados em palco. Terá faltado aos Pelt em certos momentos a capacidade de se transcenderem, o efeito surpresa e o avançar confiante para terrenos distintos; mas nos melhores momentos as paisagens criadas pelos Pelt mostraram ser muito apetecíveis.

· 04 Mar 2006 · 08:00 ·
André Gomes
andregomes@bodyspace.net
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