Dee Dee Bridgewater
Centro Cultural de Belém, Lisboa
24 Fev 2006
Não há, actualmente, muitas candidatas sérias a vozes de primeira linha no jazz contemporâneo. Apesar de uma febre mais ou menos recente de vocalistas ajazzadas, bonitas e queridinhas, com vozes competentes - Jane Monheit, Lisa Ekdahl, Silje Nergaard ou até Norah Jones, entre outras – estas não se têm afirmado como vocalistas plenas de jazz, para já são simples cantoras softqualquercoisa, não ascenderam ainda à condição de divas. Divas há muito poucas. E Dee Dee Bridgewater é uma delas. Na linhagem das grandes vozes clássicas do jazz, de Billie Holliday a Ella Fitzgerald, de Sarah Vaughan a Betty Carter, passando por Carmen McRae ou Nina Simone, Dee Dee tem, mais do uma voz talentosa, uma personalidade que a eleva acima da concorrência, que a distingue das cantorazitas que podiam ser as nossas vizinhas da porta ao lado.

Foi um Centro Cultural de Belém esgotado que acolheu o seu espectáculo “J’ai Deux Amours”. Inspirada por Paris, a cidade que a acolheu durante muitos anos, Dee Dee presta homenagem à chanson, interpretando uma leva de clássicos franceses, adaptando-os à sua voz, transformando-os em jazz. Sendo que o território mais propício a estas coisas é (e sempre foi) o songbook americano, o francês não será à partida tão fácil – mas, se até a portuguesíssima “Coimbra” se transformou no standard universal “April In Portugal”, não há que duvidar da capacidade do jazz em adaptar qualquer canção.

O espectáculo abriu com o tema-título, “J’ai Deux Amours”. Desde logo se viu que a formação que acompanhava a cantora não era a mais apropriada. O uso do acordeão (Marc Berthomieux) é um truque fácil para fazer a associação directa à música francesa, demasiado fácil, mas ainda assim foi do melhor da banda de acompanhamento. Ira Coleman (contrabaixo) foi também importante, fundamental a manter o balanço. No entanto a inclusão de Louis Winsberg (guitarra) e Minimo Garay (bateria e percussões) foi desastrada. O primeiro revelou gosto por solos de guitarra muito foleiros – e isto é do domínio do gosto pessoal, mas exibicionismos técnicos chatos e desapropriados não são propriamente o propósito do jazz. O segundo, com um kit de bateria muito personalizado, que incluía congas e outros artefactos, esteve em excessiva evidência – o que foi mau. Para além da dupla guitarra/percussão se ter feito demasiado notada, por vezes seguiu em aproximações a ritmos latinos e sugestões caribenhas – o que, convenhamos, não será o mais adequado quando o que se pretendia era associar o jazz à chanson.

“Ne Me Quitte Pas”, aquela que é a música mais triste de sempre (quer na versão de luxo de Jacques Brel ou na interpretação despida de Nina Simone), transformou-se com os arranjos deste grupo num registo incompreensível – às palavras cheias de alma cantadas por Dee Dee, a bateria apelava a uma animação de feira. E assim se seguiu pelo concerto fora, num contraste óbvio e desajustado. Para poder tirar o partido máximo do concerto pedia-se uma concentração na voz, tentando esquecer o acompanhamento. Ainda assim escapou um par de temas, “La Belle Vie” e “Avec Les Temps” (de Léo Ferré), quando a bateria e a guitarra estiveram particularmente recatadas.

O espectáculo terminou com o inevitável “La Vie En Rose”, se bem que a música-assinatura de Edith Piaf tenha sofrido com os já referidos vícios do tratamento instrumental. Em encore, após aplaudidíssima salva, chegou o clássico “Speak Low” de Kurt Weill. E quando as luzes já estavam acesas e todos se preparavam para sair, Dee Dee teve ainda a gentileza de oferecer uma interpretação a solo de “Amazing Grace”. De alma aberta, sem qualquer apoio instrumental, foi uma despedida emocionante e, apesar de provavelmente pouco dizer à maioria do público burguês que encheu a sala, extravasou sentimento.

Dee Dee Bridgewater foi enorme. Quer a cantar comme il faut, a seguir as melodias, quer a fugir-lhes, a prolongar as notas, a brincar no scat ou até mesmo na imitação de um trombone (na parte final do concerto), foi extraordinária. Pela intensidade, energia, teatralidade, sentido de espectáculo, alma, elegância, carga dramática, sedução, sensualidade, por tudo, Dee Dee esteve brilhante. E só foi pena que a banda de acompanhamento tenha estado tão distante.
· 24 Fev 2006 · 08:00 ·
Nuno Catarino
nunocatarino@gmail.com

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