Pop Dell´Arte
Galeria Zé dos Bois, Lisboa
18 Fev 2006
Pop Dell’Arte. O nome engloba 20 anos. 20 anos de história, 20 anos de pós-punk feito em Portugal, não necessariamente em português, mas também em português, em inglês, em francês, em onomatopeias e em barulhos com a boca de João Peste. São estas as matérias-primas do rapaz para escrever canções. As ferramentas são as associações de ideias, o “pedir emprestado” sem pedir emprestado realmente, e tudo aquilo que lhe passar pela cabeça. A história de um dos únicos grupos que representou (e continua a representar) em Portugal verdadeiramente o pós-punk e um nome maior da pop portuguesa, um dos poucos grupos verdadeiramente originais deste país – Portugal -, desta cidade – Lisboa – e daquele bairro – Campo de Ourique.

Para quem ainda não era nascido em 1985 – como quem escreve estas linhas –, muito menos habitante de Campo de Ourique na altura, é difícil saber quais foram as condições que levaram João Peste a formar a banda. Mas o que se sabe é o seguinte: através de várias mudanças de pessoal, os Pop Dell’Arte mantiveram-se, mais ou menos adormecidos (e até acabados) ao longo de 20 anos. 2005 foi o ano do regresso, da celebração dos 20 anos, e agora, com a edição de POPlastik, o best-of, os Pop Dell’Arte parecem ter voltado para ficar, em aparições públicas cada vez mais frequentes, mais frequentadas e sempre apetecíveis, apesar de alguma variação em termos de qualidade.

O que nos leva àquele dia. Àquela noite. Já era previsível. Tinham quase enchido, com bilhetes a 12,5 € (salvo erro, a memória não dá para tudo), tanto o Fórum Lisboa quanto o Lux. Desta feita, os bilhetes custavam 10 € e a sala era infinitamente mais pequena. A ZDB já tinha avisado para as pessoas reservarem os bilhetes. Trintões, quarentões, alguns putos (incluindo uma filha de algum casal trintão, que andava pela Galeria, qual cãozinho, pelos pés das pessoas e depois às cavalitas dos pais), gente para quem os Pop Dell’Arte significam muito, encheram e esgotaram o pequeno espaço (se pensarmos no Aquário, o sítio onde se realizam os concertos na Galeria) da Rua da Barroca. Tanto que era quase insuportável estar no bar antes, já que a porta do Aquário não estava aberta, e as pessoas se amontoavam na parte entre o bar e a sala, que não tem tecto, pelo que se estivesse a chover, como muito choveu depois, ainda seria pior. E, lá dentro, já algum tempo passado das 11, com direito a porta da Galeria fechada e tudo, o calor era mais que muito, passando o limite do suportável (mesmo assim, em nada comparável a uma qualquer enchente moderada de verão).

Mas ninguém parecia querer saber. Aos poucos, a banda vai entrando em palco, com João Peste a chegar depois, com o seu ar psicótico, o seu blazer, a sua camisa e gravata, as suas botas feias, o seu ar de intenso aborrecimento e distância, mesmo num ambiente algo intimista, e a sua voz. Barulho do baixo e da guitarra, voz por cima, a prova de que o homem faz canções a partir de tudo, basicamente tudo. Mas, logo no início, era possível notar algumas diferenças quanto aos outros dois concertos recentes: não havia projecções atrás da banda, pelo que as referências culturais dos próprios temas em si (tanto sonoras como textuais) podiam ser mais facilmente detectáveis sem as referências visuais. E faltava Sei Miguel, trompetista brasileiro radicado em Portugal que costuma marcar presença nas apresentações do grupo, falha algo curiosa quando pensamos que a ZDB é uma casa que sempre o acarinhou, a ele e aos seus vários projectos. Assim, a parte destrutiva e menos convencional dos Pop Dell’Arte, para além das estruturas pouco comuns das canções e das letras, estava quase só a cargo de Tiago Miranda (dos Loosers), como já esteve a cargo do duo No Noise Reduction de Rafael Toral e Paulo Feliciano. Este adicionou, aqui e ali, vocalizações à Panda Bear dos Animal Collective e gritos às canções que funcionaram muito bem, mesmo que derivativos. É, acima de tudo, sinal de que a banda, mesmo 20 e tal depois, e apenas com aparições esporádicas, ainda está a evoluir, a mudar, seja quais forem as razões para o seu regresso.

Assim, sem o elemento mais destabilizador, o concerto da Zé dos Bois foi, para os padrões dos Pop Dell’Arte (se é que podemos encontrar padrões neles), um concerto mais virado para o rock’n’roll, menos dança, mesmo que “Querelle” ainda seja das coisas mais funky saídas deste país tão pouco funky (e muito mais, com o riff de baixo e de guitarra instantaneamente memoráveis e dançáveis, do que um mero exercício de emulação dos Liquid Liquid), ainda para mais com o cowbell de Miranda a continuar mesmo após o fim do tema. “O Amor… é um gajo estranho” continua a ser uma experiência quase religiosa ao vivo, a melhor canção (no verdadeiro termo da palavra) do grupo, quase só baixo e a voz de Peste, com efeitos de guitarra e de outros brinquedos aqui e ali, “My Funny Ana Lana” ainda é o tema mais convencional do grupo, uma canção rock quase normal, com estrutura normal, não fosse a voz de Peste em cima, “Esborre” e “Loane & Lyane N'Oah” mostram exactamente como o som dos Pop Dell’Arte foi transposto bem para o novo milénio (o que soa datado em disco, como a guitarra e o baixo e a bateria, respectivamente, não soa datado ao vivo), “Avanti Marinaio” tem punho erguido no ar, qual hino, “Janis Pearl” tem a heroína, o “brown sugar” que atraiu, a dada altura, Peste, e “Sonhos Pop” precisa, definitivamente, de sopros para funcionar realmente bem. Acima de tudo, não houve um cuidado muito grande com as palavras, havia mais onomatopeias do que palavras, mais linguagens inventadas do que reais (com predominância, nas reais, para o inglês, com o francês a aparecer pouco) [a ordem das canções aqui não tem nada a ver com a ordem das canções no concerto].

Trintões e trintonas e quarentões ao lado de vintões, todos sabiam as letras e cantavam-nas (mal, sem a pinta do vocalista), havendo até arruaceiros definitivamente uncool, bêbedos que pareciam não ver o que existe fora de casa desde os anos 80, ou algo parecido, que se fartavam de dizer parvoíces entre os temas, mas parvoíces daquelas sem piada, que provocam risos daquele grupo e de mais ninguém. Lá para o fim, João Peste respondeu a uma ou outra, deixando de lado a teatralidade que lhe é normal em palco, com os olhares, os movimentos de mãos e a voz.

Depois de dois encores, João Peste encerrou o concerto cantando o refrão de “Love to love you baby” de Donna Summer. Um concerto em que Peste estava um pouco mais louco do que o normal, um bom concerto, mas um pouco abaixo dos do Fórum Lisboa e do Lux (mais concertos de regresso e celebração do que este), talvez por causa dessa loucura, um concerto que estava cheio, quase insuportável, mas que lançou uma questão interessante. Porque é que a ZDB, com a sua programação tão variada, regista, maioritariamente, as maiores enchentes com bandas portuguesas? Nomes como Irmãos Catita, X-Wife, The Vicious Five, The Legendary Tiger Man, e agora Pop Dell’Arte contam-se entre algumas das maiores enchentes da Galeria. Como sempre durante estas enchentes, à saída, o frio da rua era extremamente bem-vindo, se bem que apenas momentaneamente, por causa do calor extremo que havia dentro da sala. De certa forma, é um alívio, mas também uma satisfação. Não é todos os dias que se vê uma das melhores bandas portuguesas de sempre, e se desfruta da sua música sem entrar em revivalismos parolos, já que os Pop Dell’Arte, mesmo 20 anos depois, continuam a evoluir, sempre com a máquina bem oleada e agradável de se ver.
· 18 Fev 2006 · 08:00 ·
Rodrigo Nogueira
rodrigo.nogueira@bodyspace.net

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