Turbonegro
Paradise Garage, Lisboa
15 Dez 2005

Por obra de alguém provavelmente pouco sóbrio, Turbonegro passou, certo dia, a servir de desígnio a um agrupamento de patifes noruegueses e a constar do dicionário rock como termo referente aos heróis mais destemidos do blaxploitation, ramo marginal do cinema onde o protagonista negro ocupa o lugar dominante (contrariando o código racial imposto pela Hollywood de tradição western). Habitualmente e sem grande compromisso perante a lógica, o tradicional filme blaxploitation combina tiroteios, pancadaria de fazer comichão e cenas de sexo enlatadas numa sucessão sequencial onde o que importa sobretudo é o ritmo. Lendas do género como Fred Williamson, Rudy Ray Moore (Dolemite!) e Pam Grier baleavam a vilanagem com a mesma expressão convicta com que incendiavam o cetim vermelho às camas redondas. Reside numa representação semelhante o segredo que faz dos Turbonegro um colosso de entretenimento infalível em palco: apropriam-se, de forma quase barroca, de todos os clichés do rock, sem permitirem ao raciocínio fôlego de bom-senso que o faça constatar de que se encontra perante um enorme absurdo. O Paradise Garage reavivou memórias algo longínquas de míticas noites rock (Fu Manchu foi há quantos anos?) e exibiu sensivelmente 90 minutos (duração habitual de um exploitation ou de um filme pornográfico) de espectáculo puro.

Turbonegro © Zara Quiroga

Num ano em que os palcos portugueses exerceram um papel comparável ao da União Zoófila (tal foi a receptividade perante animais das variadas espécies), os Turbonegro ocuparam de vez a porção ibérica que faltava ao plano para dominar o mundo (sodomizado, a certa altura, no épico que foi “F**k the World”). Depois do triunfante blitzkrieg ocorrido na passagem pelo festival Super Bock , a confirmação passava pelo pesadelo pré-natalício a ter lugar na sala de Alcântara.

Sem demonstrar particular urgência na promoção do recente Party Animals (favorecido pela transposição para palco), o esquadrão escandinavo ancorou a sua prestação naquele que é unanimemente aclamado como o clássico de maior porte: Apocalypse Dudes (que viu electrizados dois dos seus imensos terços). Ao dar início ao primeiro encore, a infalível “The Age of Pamparius” abre o apetite de alguns para pizza (é dessa especialidade italiana que trata a sua letra) e de outros tantos para “piça” (à semelhança de grande parte das músicas de Turbonegro). “Prince of The Rodeo” é o pagode orgiástico que se sabe e, no Garage, serviu de pretexto a que Euroboy fizesse da sua guitarra uma extensão fálica enquanto percorreu o balcão do bar e boiou nos braços do público. Irremediavelmente inferior, só mesmo “Sell Your Body (to the Night)” – insípido hino à prostituição que não teria sequer direito a vaga no Friday Rocks do VH-1 e que dificilmente convence os ouvidos a investirem nele cêntimo que seja. Bem perto do fim, o clássico “I got erection” – o money shot do concerto - comete a rara proeza de arrancar a uma sala cheia a frase confessional que, muito provavelmente, maior influência terá no crescimento da natalidade no mundo anglo-saxónico. O rock a celebrar a vida. Genuinamente lindo.

Turbonegro © Zara Quiroga

Um concerto de Turbonegro suscita também algumas dúvidas em relação a qual será o verdadeiro comportamento de um associado da Turbojugend (o omnipresente clube de fãs): actuará como membro de uma Maçonaria de parâmetros rock ou como um poseur que traja de acordo com a imagem da banda que supostamente admira? Provavelmente será uma mistura dos dois. Abençoados sejam os malditos pulmões que sabiam os refrães todos como o “Pai Nosso”. Metade da eficácia do espectáculo foi da responsabilidade dessa turba incansável. “City of Satan”, a música de Turbonegro que mais evidentemente aspira a grandiosos estádios, nunca resultaria sem a fervorosa participação do público.

Perante tão conseguida demonstração, a presente lenda viva Ribas - que malhava no Kú de Judas antes de ser Censurado - terá pensado:"São uns animais.". De palco, entenda-se. Dizem dos anos 60, que só se recorda da década quem não a viveu. A descrição que aqui consta é obra daquele meu vizinho que optou por ficar em casa a ver o debate presidencial e soube de tudo através de interrogatório alargado no dia seguinte.

· 15 Dez 2005 · 08:00 ·
Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com

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