Sigur Rós + Amina
Coliseu do Porto, Porto
19 Nov 2005

O primeiro concerto dos Sigur Rós em Portugal, mais precisamente no CCB em Lisboa, no dia 9 de Abril de 2001, tornou-se desde logo numa espécie de mito, de numa daquelas coisas “conheço-uma-pessoa-que-foi-e-que-ainda-está-viva”. Há relatos de pessoas que adormeceram, e há relatos de pessoas que admitem que esse dia lhes mudou a vida – nestas coisas ou vai ou racha, não há meio-termo ou coisa que o valha. Por essas alturas ainda os islandeses contavam apenas com Von e Von Brigði (um álbum de remixes lançado na islândia em 1998) e o surpreendente Ágaetis Byrjun, um disco editado na Islândia em Junho de 1999 e na Europa em Agosto de 2000. Ao ouvir a gravação do concerto (que anda por aí algures, no espaço indefinido da internet) torna-se imediatamente óbvio porque é que, pelo menos numa facção, os Sigur Rós despertaram tão intensa paixão: o talento estava em estado puro, ali, defronte de toda a gente. Era impossível negá-lo, a não ser o que o sono toldasse a verdade.

Mais de quatro anos após a estreia dos Sigur Rós em Portugal, há pelo menos dois factos dignos de menção: o lançamento de ( ), um disco corajoso pela sua fuga ao óbvio (metade do mundo odiou-o, outra metade jurou-lhe devoção) e do mais recente Takk…, um disco que levou os islandeses para um patamar (ainda mais) superior de reconhecimento por parte do público. Resultado: coliseu quase cheio, filas enormes (muitos foram os que perderam parte ou mesmo todo o concerto das Amina) e uma quantidade assustadora de merchandise (bolsas Sigur Rós inclusive). Mas no meio disto tudo há outro facto digno de ser lembrado: é que os Sigur Rós estiveram em Portugal em 2003 (no dia 28 de Fevereiro no Coliseu do Porto, no dia 1 de Março no Coliseu dos Recreios em Lisboa) e já se havia sentido o histerismo que desta vez se sentiu a dobrar. O motivo talvez seja Takk…. Mais, o motivo é certamente Takk…, quanto mais não seja porque este último disco dos Sigur Rós tem muito mais um sentimento live do que ( ), ou seja, a sua tradução para os concertos – por se tratar de um registo mais cheio e orquestral – tem um impacto superior.

Sigur Rós © Ana Sofia Marques

Mas em primeiro lugar estiveram em palco as Amina, as quatro meninas que acompanham os Sigur Rós em disco e ao vivo e que agora reclamaram para si essas lidas. Agora as Amina não são apenas um quarteto de cordas, são uma banda como um disco editado – mais precisamente um EP intitulado Animamina. E tal como acontece em disco, ao vivo as Amina fazem música movimentando-se a partir de um arsenal de instrumentos que numa entrevista elas próprias tratam de descrever: “strings, table harps, glockenspiels, vibraphone, glassophone, metallophone, celeste, musical saw, bells, harmonium, skranjolin (a guitar-like thing we don't know the proper name for), synths, samples”. Fazem música reservada, frágil, simples; música que podia caber quase em caixinhas de música. Passaram por alguns temas do EP de estreia e por alguns temas que provavelmente serão incluídos no primeiro disco completo (as Amina prometeram há algum tempo esse mesmo disco a ser desenhado algures entre as digressões de 2005 e 2006). Quebraram a fragilidade já perto do final para apresentar um tema um pouco mais upbeat que todos os outros – o que finalmente conseguiu calar as conversas que alguns resolvem manter a meio dos concertos – para depois abandonarem o palco e prepararem-se para servir os Sigur Rós nas cordas.

Desce um pano branco no palco que apenas permite alguma transparência. Passado algum tempo – provavelmente à hora marcada, mais minuto menos minuto – surgem os sons que levariam a “Glósóli”, o primeiro single de Takk…. Impressionou a luminosidade que já era de resto esperada - muito mais do que a própria explosão. De seguida regressou-se a Ágaetis Byrjun para ir ao encontro de “Ný Batterí” onde a ausência da agressividade na percussão foi notada. Mas agressividade foi o que não faltou logo a seguir em “Sæglópur”, um dos grandes momentos de Takk… precisamente pela sua urgência. A primeira incursão em ( ) aconteceu com “Njósnavélin”, belíssima como sempre. Aí, mil raios de luz ergueram-se e foram projectados para o público – não, a sério, mesmo. Em “Gong” a luz deu o lugar a alguma consternação e ao intensificar do frio gélido (já está na altura de se criar um dicionário de adjectivos só para os islandeses), mas em “Hoppípolla” poucos seriam aqueles não contagiados pela luminosidade e pelo brilho da actuação.

Sigur Rós © Ana Sofia Marques

O regresso a Ágaetis Byrjun trouxe “Olsen Olsen” e “Viðrar vel til Loftárása” (no ecrã por detrás do palco mostravam-se imagens daquela boneca algo perturbadora que se mostra no videoclipe do tema) e vontade de ouvir “Svefn-g-englar” e “Starálfur” – desejos nunca realmente concretizados durante o concerto. E porque ainda faltava Von para cumprir o pleno discográfico, “Hafssól” terminou o concerto em apoteose. E por falar em apoteose – e os Sigur Rós sabem bem como jogar com isso – estava guardado para o encore o tema que fecha ( ), “Popplagið”, altura em que os níveis de intensidade andaram lá em cima. Mesmo antes do crescendo final, descem de novos as cortinas e fica a imagem em reflexo da figura magra e algo alienígena de Jónsi intercalada com imagens em tons azuis e abstractas que eram projectas nesse mesmo ecrã. E quando depois parecia que iam voltar para um segundo encore, os Sigur rós e as Amina voltaram ao palco mas para agradecer os aplausos – já se ia com duas horas de concerto. Na tela branca projectava-se uma palavra que em islandês significa obrigado (mas que podia significar esperança, luz, alento, um novo dia, renascer): Takk. Por isso se conclui que deve ser tradição islandesa o auto-agradecimento.

· 19 Nov 2005 · 08:00 ·
André Gomes
andregomes@bodyspace.net

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