The Legendary Tiger Man / Calvin Johnson
Teatro Académico Gil Vicente, Coimbra
20 Fev 2004
Bizarro, no mínimo, o espectáculo que Calvin Johnson apresentou na noite da passada sexta-feira, no Teatro Académico Gil Vicente, no âmbito das comemorações do 18º aniversário da Rádio Universidade de Coimbra.

Munido de uma guitarra acústica, da sua voz e, a espaços, de uma maraca ou de um bater de pé, Calvin Johnson - a face mais visível de projectos como os Dub Narcotic Sound System, os Beat Happening ou os Halo Benders, fundador da K Records e outrora colaborador de nomes como Beck, Jon Spencer Blues Explosion e Built To Spill - trouxe as raízes da música americana na bagagem e, durante cerca de hora e meia, entoou, perante algumas dezenas de curiosos e amantes, as canções do seu primeiro álbum a solo, What Was Me, editado em 2002.

Analepse. Passam alguns minutos das 22 horas, quando, por detrás das cortinas do palco do TAGV, se anuncia uma voz tão grave quanto caricata a cantar-nos "Turn it my way". Eis que se nos revela um Calvin Johnson excêntrico, de calças arregaçadas, de pernas abertas e pose de depravado - uma espécie de cromo saído de um qualquer filme dos Monty Python, em suma.

Johnson apresenta-se e pede ao técnico de luzes que ilumine a sala de modo a avistar quem teve a coragem de pagar um bilhete para o ver. É lhe cumprido o desejo. Desde logo se começa a desvendar o rumo da coisa: toadas folk e blues de três acordes [a sequência sol/dó/ré parece ser a sua favorita, mas às vezes lá vai ao mi e ao fá], cantadas num tom de voz que tem tanto de grave quanto de monocórdico. Uma postura a roçar o ridículo e um punhado de piadas - quase sempre interessantes, refira-se - para quebrar o gelo, completariam o quadro, confirmaríamos depois. A simplicidade levada aos limites e o absurdo em potência, eis os ingredientes para uma boa noite de entretenimento e pouco mais.

À interpretação de "Love will come back again" segue-se um "Red wing black" despido, só a voz e a bater do pé. A macacada - entre o teatral e o pateta - continua e, até ao final do espectáculo, não percebemos se o senhor é realmente assim ou se, de facto, está a gozar com toda a gente. Ele lá o saberá.

Depois de "Lonesome sundown" dos Halo Benders, Johnson parte para um longo discurso. Aborda o público, sugerindo que este se dirija a ele com uma questão ou uma recomendação. Dada a inexistência de resposta - senão sob forma de risos descontrolados - passa à frente e aproveita o momento para felicitar a Rádio Universidade pela maioridade, pedindo ao público que o acompanhe na difícil missão de cantar o "Happy birthday". Para quem não o sabe, Johnson sugere: «you can fake it».Passada a euforia, alguém lhe sugere, ironica e desesperadamente, que toque uma "slow song". A resposta não tarda. Diz que, devido a um acidente que teve recentemente, se esqueceu de alguns temas, entre os quais os mais calmos. E o que se sucede? Uma canção ironicamente calma, como a maior parte do seu repertório, a convidar Johnson de novo à dança parola e a uns quantos versos repetidos até à exaustão.

Após uma referência a Mirah – que colaborou em What Was Me - Johnson parte para o tema final, "Can we kiss?". Há quem lhe tenha achado piada e há até quem lhe chame hoje de génio. Há quem tenha desejado fugir dali logo ao primeiro acorde e ainda há quem não trocasse aqueles minutos por uma noite de copos numa qualquer tasca escondida de Coimbra. Como cómico, sim, senhor Johnson. Como músico a solo, não, obrigado! Tenho que ir ouvir o One foot in the grave do Beck - no qual, aliás, participa - para recuperar da desilusão.

Na primeira parte, Paulo Furtado, aka Legendary Tiger Man, percorreu, numa operação fugaz e por isso morna, algum do repertório de Naked Blues e do recente Fuck Christmas, I got the blues fazendo-nos sentir, por momentos, o sol do Mississipi a bater na face. Apesar da brevidade e dos problemas técnicos, bastaram-lhe as interpretações de “I walk the line”, versão de Johnny Cash, de “Love Train” e de “Naked Blues" para provocar alguns arrepios na espinha. Dizem as más línguas que o espectáculo ainda estava para começar quando o homem-tigre que melhor sabe tocar blues em Portugal teve que se despedir.
· 20 Fev 2004 · 08:00 ·
Tiago Carvalho
tcarvalho@esec.pt

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