Samara Lubelski + P.G. Six
Galeria Zé dos Bois, Lisboa
18 Nov 2005
Em disco, tanto Samara Lubelski como Pat Gubler (P.G. Six) criam e interpretam canções que remetem para paisagens bucólicas, para o campo. Acontece que são ambos artistas sedeados em Nova Iorque, pelo que se pode formar um contraste interessante, de campo-cidade. Mas isto não significa que isto se possa transpor para o contexto de uma cidade bem mais pequena, como Lisboa, especialmente numa noite chuvosa. Tendo sido ambos membros dos Tower Recordings, Samara e Pat têm um fascínio pela música experimental e improvisada. Mas não foi isto que vieram trazer à Galeria Zé dos Bois. Vieram trazer as suas canções.

A primeira característica que salta à vista nestes dois artistas é o facto de parecerem mais jovens do que a sua música evidencia. Samara usa uma saia, uns collants, uns ténis modernos e um gancho no cabelo, e Pat Gubler usa óculos redondos, um hoodie e ténis Nike. Tem mais ar de quem joga Advanced Dungeons & Dragons do que de quem estuda a música europeia e a música medieval para trazer a folk para o novo milénio. Como é que alguém que nasceu no Bronx acaba a fazer música assim?

Samara tem a solo, para além um disco de drones e de música experimental, dois discos de canções: The Fleeting Skies e Spectacular of Passages. São canções bonitas, que em disco são adornadas por arranjos que as favorecem e que as distinguem entre elas. O problema é que ao vivo a agradabilidade e a beleza das canções continua lá, só que a distinção quase não. Samara canta sempre da mesma maneira, as melodias acabam por ser muito parecidas, e ser só acompanhada pela sua guitarra eléctrica, quase sempre tocada da mesma forma, não ajuda. Mesmo assim, chama Pat Gubler ao palco para os últimos temas, em que ele a acompanha à flauta, dando um travo medieval à música, ou à guitarra acústica, onde é exímio e mais dotado do que Samara. Samara mal fala com o público, tirando um ou outro comentário que mal se ouve, falando muito mais com Pat.

A meio do concerto a chuva começa a cair com força, fazendo-se ouvir de forma algo ruidosa, não combinando nada bem com a música. No intervalo as pessoas saem, atravessam a parte sem telhado que antecede o Aquário (a sala de espectáculos) para chegar ao bar, ficando muitas delas lá à espera que a chuva acalme para voltarem à sala. Assim, Pat Gubler começa a tocar para uma sala um pouco mais vazia, num set que deve mais à folk inglesa do que às outras influências europeias e globais que populam os seus discos como P.G. Six. A sua mestria na guitarra é muita, a sua voz fica um pouco atrás mas não tanto assim, as suas canções, não sendo tão bonitas quanto as de Samara Lubelski, funcionam muito melhor ao vivo, mesmo sem a componente lo-fi. P.G. Six é um nome frequentemente citado quando se fala de free-folk ou freak-folk, mas não há nada de freak aqui. Os temas são basicamente os mesmos de toda a folk, com canções tradicionais e canções que começam com "When I was a young boy", canções com melodias "roubadas" ("É preciso roubar", diz ele) a canções de natal inglesas, o que quer que seja.

No final não há encore e a chuva ainda não parou, estando um frio de rachar. O tempo parece ser sempre um factor importante na apreciação de concertos na ZDB, se está calor e a sala enche o ambiente fica quase insuportável (e então quando não era proibido fumar na sala...ainda bem que isso já acabou), mas se está frio e chuva há ruídos indesejados. Fica a pergunta: qual é o tempo ideal para um concerto na ZDB?
· 18 Nov 2005 · 08:00 ·
Rodrigo Nogueira
rodrigo.nogueira@bodyspace.net

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