Mão Morta
Hard Club
28- Set 2019
No fim era o frio. Ou será: no fim, quando o planeta finalmente ceder e nos livrar a todos do seu jugo, virá o frio, a palidez da morte. Deixará de haver o sangue e a carne, e os ossos tornar-se-ão meras esculturas estranhas aos olhos de visitantes longínquos. Pelo menos parece ser essa a premissa do novo álbum dos Mão Morta, apresentado pela primeira vez no Hard Club. Um álbum onde o medo e a impotência alimenta a imaginação, com uma mensagem que nos parece adequada: se não formos nós a dar cabo de nós, alguém se encarregará de o fazer.

No fim será o frio e o silêncio e a escuridão. Para já existe a luz, que incide sobre a banda, em palco, e o ruído, que se mantém pairando até que as guitarras se transformam em algo próximo do pós-rock - e, acreditamos, os Mão Morta nunca soaram tão pós-rock como agora, mesmo sabendo que essa crença atinge proporções blasfemas. Os Mão Morta sempre foram os Mão Morta e sempre o serão. Colar-lhes um rótulo é indesejável e estúpido.

Mas dizíamos: os Mão Morta são agora pós-rock, ou pelo menos apenas quando contam o início da história desta nova era do gelo, com a voz de Adolfo Luxúria Canibal a sobrepor-se à atmosfera construída pelas guitarras: o mundo não é mais um lugar seguro. Nunca o foi, valha a verdade. Nem no Éden. O mesmo a que parecem fazer alusão com os coros pseudo-cristãos de "Oxalá", numa paroleira sonora tremenda que só nos parece que estão a gozar (mas os Mão Morta, sendo a melhor banda da história da humanidade™, podem fazer o que bem lhes apetece). "A Minha Amada", delírio em tons kraut e em tons Kafka que nos amedronta e faz rir ao mesmo tempo (a história é fantástica, nos dois sentidos), apresenta-se como o ponto alto do disco, cuja interpretação na íntegra constituiu a primeira parte de um concerto, antes de uma pausa para intervalo.

Depois do frio, vieram os "sucessos": "Sitiados", "Hipótese Do Suicídio" ou "Tu Disseste", a abrir, "Em Directo (Para A Teelvisão)" (e pensamos: esta canção tornou-se profética: basta ver as redes sociais e a gentrificação globalizada e as pessoas presas em ecrãs, agora de telemóvel), "E Se Depois", "Bófia" e os inevitáveis la-la-las de "1º de Novembro", logo a seguir. E, depois de muita insistência por parte do público, um curto encore (porque já não havia mais camisas para Adolfo vestir) com "Budapeste (Sempre A Rock & Rollar)", para pôr fim a um concerto gigante da banda bracarense. Mas não o são todos?
· 30 Set 2019 · 13:24 ·
Paulo Cecílio
pauloandrececilio@gmail.com

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