Nova Batida
Village Underground Lisboa
13-15 Set 2019
Aí está ele de volta: o festival que traz o sotaque britânico a Lisboa, o evento que para chavs com mais dinheiro que os outros é um verdadeiro arraial de verão, a Benidorm da electrónica. O Nova Batida voltou a ocupar o LX Factory e o Village Underground, desta feita com três dias de música e não dois, desta feita com muitos cancelamentos à mistura, muita confusão - sobretudo na imprensa - e muito pouco por onde se pegar. Tanto, que este texto vai sobretudo em português porque não me estou para chatear / trollar como no ano passado.

O summer camp que nem o Brexit destruiu trouxe até à capital os Kokoko, que tal como em Paredes de Coura mostraram aquilo de que são feitos: muito ritmo e versos call and response. A hora a que actuaram levou a que o LX Factory ainda estivesse meio vazio - porque alguns trabalhavam, e outros provavelmente estavam mais ocupados a beber -, ainda que se tenham vislumbrado alguns corpos dançantes. Vislumbrou-se, também, o lema da edição deste ano: d'ya have sum stuff, mate?, sendo que stuff, para estes tipos, é aquilo começado por "c" e por "k" e não coisas ligeiramente mais benignas.

Havia expectativa para o live de Ross From Friends, que não foi tão defraudada quanto isso: o house de baixa fidelidade conjugou-se bem com a guitarra e o saxofone, atingindo o seu ponto máximo com a magnífica "Talk To Me You'll Understand". Floating Points, outro dos destaques, trouxe electrónica subaquática - com o mar como pano de fundo - e algum acid, deixando marcas ao puxar pelo noise a dada altura - um momento que só serviu para matar a vibe de quem só curte (nova) batida. Quando olhámos outra vez (depois de deambular por aqui e por ali, sem medos) já ele estava a meter jungle. Ficou a dúvida: foi live ou DJ set?

DJ Seinfeld, a segunda piada millenial do dia a seguir ao(s) Ross, foi melhor ainda: também se ouviram ritmos lo-fi, ligeiramente mais agressivos, mas foi nas suas escolhas (este sim, foi DJ set) que se superou aos demais. Primeiro com "It's Like That", dos Run-D.M.C. (versão Jason Nevins), depois com "Kernkraft 400", dos Zombie Nation (e era ver aqueles bifes todos suados a cantar a plenos pulmões, como se estivessem na bancada do Newcastle ou do Millwall ou o caralho). De Jon Hopkins não rezará a história: 20 minutos de techno mais negro e já havia gente a desistir (como o gajo que tive de ajudar a sentar-se, tamanho era o alcoolismo ou o que lhe valesse). Como a equipa Bodyspace, que foi imediatamente para casa.

Imperdível foi Talib Kweli, mas isso já se adivinhava. É sempre fixe quando um rapper entra em palco e faz aquilo que lhe compete: rappar, em vez de meter um DJ manhoso a botar backtracks e a pedir ao público que mexa a peida (mexo se me apetecer, seus filhos da puta). Ou quase - os primeiros dez minutos pertenceram, de facto, a um DJ manhoso. Por entre vários shout outs a Portugal (mal sabia ele que os portugueses ali se contavam pelos dedos), Kweli foi dedicando malhas ao grande J Dilla, enveredou pelo reggae a dada altura, mostrou toda a força do seu flow em formato a cappella, interpretou a mágica "The Blast" e ainda deixou uma mensagem para todos os nazos que pudessem lá estar (duvido): pro-black doesn't mean anti-white. Enorme.

No terceiro dia (os Friendly Fires cancelaram, na noite anterior, e esperar até à meia-noite por Daniel Avery foi algo que não nos assistiu - ainda para mais quando a oferta musical passava por um DJ set dos, argh, Jungle), os Auntie Flo revelaram-se uma bela surpresa. Deep house em formato banda, com um teclista cheio de pinta (quase que o imaginei a meter cavalo com os Miles Davis desta vida), um convidado do Senegal que só aterrou em Lisboa 20 minutos antes do concerto (e que pintou tudo com canto e percussão tribais) e um público extraordinariamente escasso (estava tudo de ressaca). Mas, também, eram 17h.

Os Ibibio Sound Machine não tiveram melhor sorte, visto que à mesma hora um idiota qualquer preferiu estar nos bastidores a berrar o golo do Marcano, ignorando a poderosa voz soul de Eno Williams e os ritmos gingões e calorosos de um colectivo que parecia estar mesmo, mesmo a rebentar - mereciam vir em nome próprio e em condições mais dignas. Ben UFO, um dos pratos fortes da noite - antes de Four Tet e dos Midland - chegou em força com fumo, techno e uma remistura a roçar o patético da grande "Con Altura". Mas é disso que o povo gosta. Viva Lisboa, a nova Gibraltar.
· 25 Set 2019 · 22:58 ·
Paulo CecŪlio
pauloandrececilio@gmail.com

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