Lisb-On
Parque Eduardo VII, Lisboa
31-08 a 2-09-2018
É sexta-feira de quase-descanso e está calor em Lisboa. Muito. Nota-se, na indumentária escolhida pelos poucos que vão chegando ao longo da tarde ao Parque Eduardo VII, para o primeiro de três dias dedicados à música electrónica, desta feita pensados pelo Lisb-On, festival que parece ter ocupado já e em definitivo um lugar no panorama musical português, especialmente no que a este tipo de sonoridades diz respeito. De todos, é capaz de ser o festival mais chill; a confusão é pouca, a música vai-se escutando quando o sol ainda arde no céu, não há filas para coisa nenhuma e mesmo a facção CDS-alternativa que parece ter tomado conta de Coura não marca grande presença. O único ponto negativo é o mesmo de todos os demais festivais na tuga: o preço exorbitante da cerveja.

Quanto à electrónica, que parece ter cada vez mais apoiantes em Portugal - e não apenas do lixo comercial e Sudoeste-lite -, foi salpicando a atmosfera aqui e ali e teve como prato forte neste primeiro dia as escolhas do norueguês Todd Terje, de regresso a este mesmo espaço para um DJ set durante o qual foi envereando por territórios disco espacial, house e acid, até desaguar previsivelmente em "Inspector Norse", um dos grandes malhões desta década e do qual foi autor. Mas não na sua versão mais conhecida, e sim vestido de acid jazz - o que foi estranho, mas comeu-se.

Nem as moscas inoportunas que vão vagueando pelo verde impedem os presentes de fazer aquilo que a música de dança electrónica pede, que é dançar e divertir-se. Uma música que é apresentada, em palco, como um grande fio condutor que liga tudo a tudo. Sem que absolutamente nada se perca com pausas que não interessam para nada, Michael Mayer toma conta dos pratos com o objectivo de manter a mesma toada dançável. Nos bastidores, dois agentes da autoridade aproveitam, sossegados, o seu café; não teriam grandes problemas de maior ao longo do fim-de-semana. Há fotógrafos que se movimentam para a frente de palco. Beldades negras rodopiam as ancas ao som do techno. O alemão beberricando de um copo de vinho branco. Minha nossa, como é fodido escrever sobre DJ sets...

Não há grande espectáculo em palco; há música, e acabou. Há as escolhas muito próprias de quem é pago para fazer dançar os tipos de panamá, saídos do Fear And Loathing In Las Vegas; as duas negras claramente filhas de diplomata; a MILF de calções que procura voltar atrás no tempo; e o imprescindível João Botelho. Para não falar das duas raparigas espanholas que queriam mesmo muito tirar uma fotografia com Michael Mayer, e quase que se aposta que não seria por causa da música. A mesma trazida por Radio Slave, que começou por mostrar um techno fortíssimo e algo atmosférico e que ainda arranjou espaço para "Relax", dos Frankie Goes To Hollywood. O gajo que assina este texto é que não arranjou espaço para suportar muito mais da palhaçada que foi Rødhåd, que preferiu agradar à carneirada em vez de pôr corpsepaint na cara e no techno.

O segundo dia trouxe consigo St. Germain, pouco menos de um mês após a presença do projecto no NeoPop (podiam tê-lo anunciado mais cedo no Lisb-On e poupado muita gente de fazer 400km, mas enfim). Tal como no festival de Viana do Castelo, Ludovic Navarre apresenta-se em Lisboa com a sua banda, formada por elementos dos quatro cantos do mundo ou quase, para uma sessão de verdadeira música para respirar. O alinhamento não foi muito diferente do do NeoPop: tal como aí, houve um solo de bongos, um percussionista brasileiro a apresentar toda a gente, um groove fenomenal e a maravilhosa "Rose Rouge", recebida de forma efusiva. Afinal de contas, estamos a falar do "êxito"... Disse o supracitado percussionista que o público foi maravilhoso, e este poderá dizer o mesmo da banda. O final da digressão de St. Germain não poderia ter sido melhor.

Maceo Plex, contratado para dar cinco horas de techno a quem o conhece por ser famoso, começou com "Riders On The Storm", dos Doors, só para dar aquele gostinho de algo diferente. A partir daí foi o descalabro, ainda que aquela onda meio futurista, onde os synths anunciam o triunfo das máquinas, pudesse ter sido melhor apreciada num outro estado físico e mental. Sóbrio é que não. pelo que descansou o suficiente para entrar cheio de força no terceiro dia, com Mr. Scruff a mostrar um funk líquido e taquicardíaco, sendo que mexeu mais nos botões da mesa em cinco minutos que todos os outros ao longo de dois dias, polvilhando a música com efeitos gostosos e, por vezes, inesperados. O seu set, bastante eclético, passou por música árabe, brasileira, disco e tudo o mais que possa fazer abanar o esqueleto. Incluindo "Samba De Janeiro". Incrível.

O melhor, como dizem os Portistas, ainda estava para vir. E o melhor foi Larry Heard, a.k.a. Mr. Fingers, a.k.a. pai do house - em especial da sua vertente deep - e que esteve no Lisb-On para apresentar os temas do seu novo álbum, Cerebral Hemispheres. O que Heard mostrou no festival não foi tanto um live como um espanto: afinal de contas, é de uma lenda que se fala. Uma lenda que começou com batida e voz processada, meteu uma melódica nos beiços, deu espaço a um companheiro de tour (cujo nome ficou perdido algures no bloco de notas, mas que tinha uma bela voz soul) e terminou, claro, com a maravilha de canção salva-vidas e muda-vidas que é "Can You Feel It", antes de um merecidíssimo encore (já que tinham «mais alguns segundos», e tinham). Mesmo que este terceiro dia aparentasse ser aquele com menos gente, não houve quem tivesse ficado indiferente. Pudera. Até São Tomé se passa se vir Deus à frente. Para terminar, Kerri Chandler - que a dada altura até "invadiu" o palco e foi dar um abraço a Larry Heard - mostrou um set também próximo do house, acompanhado por um teclado onde ia construindo as suas melodias. Um house com alma, já que a existência desta havia sido provada com o espectáculo anterior. Conseguiram senti-lo? Sim, conseguimos.
· 17 Set 2018 · 00:56 ·
Paulo Cecílio
pauloandrececilio@gmail.com

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