The Cure
MEO Arena, Lisboa
22- Nov 2016
Pouco passa das 20h quando os escoceses The Twilight Sad sobem ao palco da MEO Arena, trazendo consigo uma camada de ruído do bom e reminiscências dos Jesus & Mary Chain em versão (ainda) mais gótica. Mas mesmo que esta tenha sido a estreia da banda em Portugal, não são muitos os que se aglomeram junto do palco ou se sentam nas bancadas, preferindo formar filas quase intermináveis em busca de uma cerveja ou acompanhar de perto todos os lances do Sporting x Real Madrid através do seu tablet.

Valha a verdade, outra coisa não seria de esperar: a grande maioria veio para ver os The Cure, e veio para os ver durante três horas - não mais, não menos. Tudo o que sirva para se poder descansar as pernas e os ouvidos antes da maratona será recebido com agrado e, neste caso, foi a primeira parte do espectáculo. Algo que foi facilmente comprovado quando, já perto da hora assinalada para o concerto, olhamos em redor e constatamos que a MEO Arena afinal encheu a bom encher. E é nesses moldes que entra em erupção, quando Robert Smith e seus comparsas pisam finalmente o negro da estrutura montada, abrindo com "Open", tema retirado a Wish, de 1992.

Importa salientar uma vez mais: o concerto era de três horas. Três horas em que os The Cure, em modo best of, vão desfilando temas atrás de temas, alguns que marcaram gerações, outros que detêm estatuto de culto entre os seus fãs, e uns quantos que, valha a verdade, servirão apenas para encher um chouricito. Em última análise, ninguém poderia sair dali defraudado; a banda britânica mostra estar ainda numa forma muito respeitável, mesmo que no final do espectáculo Robert Smith tenha saído do palco com um "obrigado" e uma notória falta de fôlego.

E, no entanto, sobra uma mágoa imberbe. Não tocaram "Disintegration". Não tocaram "The Lovecats". Não tocaram "Killing An Arab". Não tocaram "Kyoto Song"... Mas isto só atestará à sua franca qualidade - quantas bandas conhecemos que sejam capazes de dar concertos tão longos e baseados em tantos álbuns e, mesmo assim, haja algo que fique de fora? Dinossauros, talvez, mas gigantes. Uma banda que ainda não perdeu a magia, quatro décadas após a sua formação.

Não se escutaram as supracitadas, mas escutou-se "Pictures Of You", uma das grandes canções sobre mandem nudes, a magnífica "One Hundred Years" e seu respectivo riff, que foi tocada à medida que iam surgindo, no ecrã, imagens de uma ou mais guerras que já pareceram mais distantes, houve palmas do público a acompanhar o baixo paranóico de "A Forest" e houve um abracinho de Smith ao teclista Roger O'Donnell durante "Close To Me", para além dos êxitos M80 - "Friday I'm In Love", "Boys Don't Cry" e o final com "Why Can't I Be You?". E, acima de tudo, houve um sinal claro de que os The Cure ainda nos podem oferecer muito através do seu passado. Nem parecia um concerto de três horas.
· 24 Nov 2016 · 00:25 ·
Paulo Cecílio
pauloandrececilio@gmail.com

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