Max & Iggor Cavalera
Hard Club, Porto
06- Nov 2016
Pouco passa das 20h quando um melão gigante, potenciado pelas orelhas de um mexicano que ficaria melhor sendo perseguido até à eternidade por um qualquer Tom em vez de se dedicar a jogar à bola, tenta entrar num Hard Club apinhado até ao tutano numa das primeiras noites realmente gélidas da temporada pós-verão. Outra coisa não seria de esperar: a sala portuense iria acolher, em regime exclusivo, o regresso dos Sepultura a Portugal. Sim, escrevemos Sepultura, porque Max e Iggor Cavalera são, para todos os efeitos, os Sepultura - e que ninguém vos tente convencer do contrário.

Foi com Max e Iggor no comando que a banda brasileira passou de brincadeira de adolescentes para uma das melhores bandas do mundo, se não a melhor, pelos idos anos de 1991 com a edição de Arise. E foi também com eles que fez um álbum que, ao contrário dos anteriores (e por mais clássicos que estes possam ser) ainda resiste ao teste do tempo: Roots. Porque Roots não é um álbum passível de ser cartografado ou situado no tempo; aliás, faz mais sentido ouvi-lo hoje, quando o metal, de forma geral, abandonou quase todas as suas barreiras e decidiu começar a experimentar com o que tivesse à mão. Roots é essencial porque poderia perfeitamente ter sido feito hoje e soar tão fresco quanto soa. Ao contrário de Arise ou Chaos A.D., que, mesmo gigantes, são imediatamente identificáveis com os finais dos anos 80, inícios de 90.

Faz sentido, portanto, que o álbum seja celebrado, ele que cumpriu este ano 20 de uma garbosa existência. E faz mais sentido que sejam os seus mentores a celebrá-lo. Ao longo de uma hora e poucos minutos, Max e Iggor Cavalera reviveram os bons tempos dos Sepultura num concerto que foi, sobretudo, competente: Roots tocado de uma ponta à outra, respeitando o alinhamento, entre mosh vário e pedidos para se formar um circle pit bem junto do palco. Como pontos negativos, o som escutado - nas filas mais atrás era francamente miserável - e alguma falta de faísca da parte de Max, que já não tem, naturalmente, a voz e genica de outros tempos (está um chouriço, ouviu-se depois à porta).

Apesar dos defeitos, não se poderá dizer que não foi um concerto bem conseguido. Os muitos "caralho" e "porra" enchem-nos o rosto de sorriso, "Roots Bloody Roots" (que foi repetida no encore numa versão bem mais acelerada) e "Ratamahatta" ainda são verdadeiros tanques tribais, músculo pingando em todas as cordas e naquele um, dois, três quatro... que marca o compasso. E há ainda "Cut-Throat", "Straighthate" e o final com "Dictatorshit" para fazer a festa...

Antes de abandonarem o palco, os irmãos Cavalera, coadjuvados por Marc Rizzo e Johny Chow, ainda deram aos presentes algumas prendas. Não as que estes esperavam; houve alguma desilusão, escutada em conversas alheias, por não se ter presenciado "Arise" ou qualquer outro tema mais thrashy. Mas uma versão low cost de "Polícia", versão dos Titãs (completa com um coro de filhadaputa!), uma incursão pelos Celtic Frost ("Procreation (Of The Wicked)", presente numa reedição de Roots), e uma homenagem a Lemmy Kilmister via "Ace Of Spades" (esta sim, horrenda) serviram para deixar no ar a ideia de que valeu a pena voltar a ver os Sepultura em concerto. Os verdadeiros Sepultura, e não a contrafacção
· 21 Nov 2016 · 11:26 ·
Paulo Cecílio
pauloandrececilio@gmail.com

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