The Kills
Hard Club, Porto
4- Nov 2016
De guitarra bem levantada, camisola nove nas costas, Jamie “Hotel” Hince entra no palco seguido da distribuidora e Mata-Hari Alison “VV” Mosshart (esta moça mata muito) para abrirem à força das baterias de combate de “Heart Of A Dog” (à semelhança do concerto de Lisboa), segundo single extraído ao novo Ash & Ice álbum que, como seria de esperar, dominou a setlist do concerto. Entrada a matar, a gosto dos convivas que tinham vindo para isso mesmo: assistir à matança da expectativa de verem o que a dupla euro-americana faria com o seu quinto disco. Foi rock de tempestade, guitarras a furar pulmões e sedução, afinal é para isto que existimos, seduzir e sermos seduzidos e os The Kills conseguiram-no à força de transportarem para o interior do Hard Club, a tempestade que entretanto tinha desmobilizado lá fora.

Como acima aflorámos, o duo passou as guitarras pelos cinco álbuns que enchem o seu baú de rock. A uns, mais do que a outros, foi-lhes dado tempo de antena com, curiosamente ou não, “Doing It To Death” (primeiro single extraído ao novo Ash & Ice) a ser o mais condecorado pelo público. Entre o tempo e espaço que da primeira “Heart Of A Dog” até ao clímax “Doing It To Death” (7ª) se passou, Alison transbordou e transbordou-se para nós. Alimentada pela "gasolina branca de avião" chamada Jamie Hince despejou fogo com “U.R.A. Fever” ou “Kissy Kissy” e forçou a barra quando, por dois temas seguidos, deu espaço ao novo álbum. Saiu ilesa, o público não.

Depois do zénite, a cumplicidade. É enternecedora a cumplicidade que Jamie e Alison deixam esvoaçar do palco. Se na primeira meia-hora de concerto isso já se vinha entrevendo, nos restantes doze temas, encore incluído, a partilha e a sintonia que o duo serviu de bandeja foi mais que evidente e deu a alma que poderia faltar, dada a sua jovem natureza, às novas músicas da banda. “Hum For Your Buzz” é disso um belo exemplo.

Calor, volúpia (aquele tripé de micro nunca mais será o mesmo depois de agarrado por Alison) e cumplicidade que esbarraram numa “Monkey 23” trazida dos confins do primeiro assomo Keep On Your Mean Side para o “primeiro” final de concerto. Pausa para verificações, tudo em ordem, marcha. Aí está o encore. Mais pausado, mais suave como o português e com Alison em “That Love” modo acústico. Findo o momento em que os isqueiros quase ganharam vida, paradoxal tendo em conta o grosso da actuação, as labaredas subiram novamente as paredes do Hard Club com “Siberian Nights”, “Last Day Of Magic” e “No Wow” a queimarem tudo à sua passagem, qual Exército Vermelho torrando a paciência aos “boches”, mas que lhes valeu uma segura, potente e tremenda vitória.

Em suma, ela seduziu quando quis, como quis e ainda teve tempo para um cigarro…depois. O “nove”, matador por definição, estava lá a debitar riffs com a mesma velocidade com que Ronaldo ou Messi fazem definhar guarda-redes, mas o 10 da companhia, maestrina na ocasião, fez gato-sapato de um lotado e suado Hard Club. Uma torrente de energia e sedução, com direito a prolongamento, onde até o tecto “chorou” entrevendo a altura em que teria que se despedir de uns The Kills em “modo campeões do mundo”. O Hard Club foi deles.
· 08 Nov 2016 · 23:05 ·
Fernando Gonçalves
f.guimaraesgoncalves@gmail.com

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