The Legendary Tiger Man
Blá Blá, Matosinhos
22 Set 2005

Esta crónica começa desde logo com duas meias verdades: em primeiro lugar, o concerto estava de facto previsto para o dia 22, às 22h30, mas as portas do Blá Blá ainda estavam fechadas a essa hora, tendo o concerto apenas começado quando já passava da 1h00, ou seja, já no do dia seguinte; depois, a actuação de Paulo Furtado (aka The Legendary Tiger Man) estava integrada numa suposta “Noite Electro” da Semana de Recepção promovida pela Associação de Estudantes da Escola das Artes da Universidade Católica do Porto, coisa estranha quando o nome principal do cartaz tem como referência central o blues. A noite prometia ainda dois DJ e um VJ (Retro Boys) mas, a julgar pela amostra dada durante as mais de duas horas de atraso, de electro ouviu-se pouco. Quereria a organização referir-se à electricidade da guitarra de Tiger Man?

Com estas coordenadas, cabia a Paulo Furtado elevar o moral das pouco mais de 100 pessoas presentes, que até se mostravam maioritariamente pouco preocupadas com o atraso. O “homem tigre” intitula-se de “one man band” e não é para menos: em palco chega a ter todos os membros ocupados com instrumentos. A percussão é assegurada com os pés, que manipulavam um bombo, um

© Ana Sofia Marques

prato de choque e uma cowbell; depois havia a guitarra e dois microfones e um kazoo. O concerto começou com “Gonna Shoot My Woman” e desde logo se percebeu que ia haver problemas: duas ou três pessoas na frente da assistência (possivelmente com uns copos a mais) aproveitavam os intervalos das músicas para provocar Paulo Furtado, chegando a atirar-lhe cubos de gelo e outros objectos. Se a princípio o multi-instrumentista tentou ignorar a situação, a determinada altura começou a responder à letra, de forma corrosiva. No final da actuação, o músico já só dizia não ter palavras para descrever a situação, chegando a afirmar que o seu próximo álbum iria precisamente abordar “problemas de taxinomia”, como aqueles com que ele se debatia na tentativa de caracterizar o referido grupo. No final de cerca de 50 minutos de música, até ficaram por tocar os temas que estavam programados para o encore.

Infelizmente, a música acabou por não ser o destaque da noite: o ruído dentro do bar era enorme (mesmo ao lado palco jogava-se bilhar, por exemplo) e o ambiente não foi manifestamente dos mais agradáveis. E sem o factor empatia (a determinada altura, Paulo Furtado referiu ironicamente que o entusiasmo do público era “contagiante”), tornou-se quase irrelevante a sua performance “limpa” e escorreita, mas sem grande entusiasmo. Os temas interpretados andaram entre os álbuns Naked Blues e Fuck Christmas, I Got The Blues, ou seja entre a génese blues e tonalidades mais rock & roll, soul, ou mesmo punk, ouvindo-se apesar de tudo boas versões de “I’ll Make You Mine”, “Crawdad Hole”, “Love Train” ou “Your Life is a Lie”.

O que aconteceu no Blá Blá vem dar um pouco de razão aos cartazes das festas académicas, que primam por ser fortemente conservadores. Convidar um nome como The Legendary Tiger Man para uma festa académica, não sendo inédito, é arriscado, ainda para mais sem mais qualquer outra banda no cartaz. Mas não há nada de grave a temer, porque Paulo Furtado não é homem para se deixar abater facilmente, mesmo depois de uma actuação que certamente não vai ficar guardada (pelo menos por bons motivos) na sua memória.

· 22 Set 2005 · 08:00 ·
João Pedro Barros
joaopedrobarros@bodyspace.net

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