Festival Sinsal Son Estrella Galicia 2016
San Simón, Galiza
24- Jul 2016
Festivais há muitos. Cada vez mais. E, na grande maioria, são cada vez mais iguais. O Festival Sinsal I Son Estrella Galicia 2016 é uma feliz e valiosa excepção. Para começar, acontece que o público apenas tem conhecimento do cartaz quando chega à ilha onde acontece o festival, a ilha de San Simón, na Galiza. E depois há uma data de coisas que o distinguem para além da qualidade da sua proposta musical: a comida (é possível "mandar vir" tábuas de polvo, no shit), a sua incomparável beleza natural e, imagine-se, há silêncio (mesmo ao ar livre, mesmo nos concertos mais contidos) durante os concertos. Não há selfies, não há estilo e não é tudo "muita louco". É um festival de música. Onde na verdade se ouve música.

No domingo, dia especialmente convidativo para famílias (as crianças não pagavam, imagine-se), a oferta era bastante variada. Não era muita (nunca é, não existem quer concertos sobrepostos) mas foi quase sempre certeira. Começou tudo depois da hora do almoço em catalão com o maiorquino Joan Miquel Oliver e com uma espécie de slowcore com o qual se pode dar um ligeiro pezinho de dança. O sol intenso ajudou tudo a parecer mais melódico do que o que se calhar realmente foi. Um par de canções ficaram mais na cabeça do que outras, a juntar ao maravilhoso sentido de humor do músico espanhol. Mas ainda estávamos todos a habituar-nos ao território - e este que escreve à bela paella que se chamou a atenção à chegada à ilha.

Mudar de palco neste festival é um prazer. Dá vontade de o fazer repetidas vezes - mesmo que não seja necessário. E desta vez até dava um gosto especial. Não estivesse o norte-americano Ryley Walker a apresentar algumas canções do seu disco anterior e, imaginamos, algumas do seu próximo disco, Golden Sings That Have Been Sung que será editado em Agosto com o selo da Dead Oceans. Com aquele tal sol a bater nos olhos e com aquela natureza deslumbrante a mostrar-se olhando para onde olhássemos, as canções de Ryley Walker, apesar de explorarem a imagética americana, fizeram ali especial sentido. Com um baterista e baixista oriundos de Oslo, o norte-americano apresentou canções entre a música folk e o psicadelismo, mostrando que é uma voz - e um guitarrista - em claríssima ascensão.

Depois de uma espécie de pausa para almoço, com direito a um espectáculo para as dezenas de crianças que marcaram presença no festival naquele dia, passamos para uma das maiores surpresas da tarde: a argentina Juana Molina. Os seus discos contam-nos uma história de canções dóceis de embalar mas aparentemente os seus concertos, pelos menos os de agora, são perfeitamente capazes de transformar a plateia numa enorme pista de dança. Começaram todos sentados e terminaram todos numa enorme comunhão da reinvenção de Juana Molina. Baixos pulsantes, teclados ultra-melódicos, alguma estranheza (não poderia ser de outra forma) e uma voz em grande forma. Belíssimo concerto.

Por falar em pista de dança, mas agora sem surpresas (já sabíamos ao que íamos, claro), os Bixiga 70, vindos directamente do Brasil, deram um banho de afrobeat com o inconfundível toque brasileiro. A plateia começou apenas curiosa mas rapidamente cedeu, rendida, aos encantos dos brasileiros: a doçura dos metais, a intensidade da percussão, tudo ajudou a construir uma festa que até teve direito a comboínho. Em cima do palco esteve Bixiga 70 (2013), um álbum deliciosamente viciante. Canções como "Deixa A Gira Girá" ou "Kalimba" provam que os Bixiga 70 nasceram dos ensinamentos de Fela Kuti mas quiseram dar a esta música um toque particular, chamando a ela, entre outras coisas, os inconfundíveis ritmos brasileiros. Festão.

De Domenique Dumont pouco ouvimos - mas soou bem ao longe naquela ilha quase paradisíaca (só falta mesmo dar para mergulhar naquelas águas). Mas ouvimos, isso sim com atenção, uma espécie de aparição chamada ALA.NI. Parte diva por chegar, parte cantora jazz, a fazer lembrar Billie Holiday, ALA.NI nasceu em Londres, e tem uma voz de outro mundo. A sua figura, esguia, negra, belíssima, contrastava com o ar sério da harpista que a acompanhou. Mas musicalmente tudo fez perfeito sentido. A certa altura parecia que tínhamos todos viajado até ao passado, aos anos 30 ou 40, e que tudo parecia mais fácil e naïf por lá. Uma coisa parece certa: o mundo ainda vai ouvir falar muito de ALA.NI.

A fechar o dia, antes do barco de regresso a Vigo, Islam Chipsy & EEK foi o prato servido para a despedida. Os sons do Egipto aterraram na ilha com um turbilhão de teclados e percussão. Hipnótico, claro, exótico, muitas vezes, entusiasmante, algumas vezes, sim. Mas nem tudo são rosas: por vezes as explorações do egípcio são demasiado circulares e aquilo que começa por ser hipnótico torna-se algo enfadonho e circular. Apesar de alguns momentos bons, o rastilho não pegou totalmente e a festa foi algo tímida. O que não retira nenhum brilho a uma tarde muito bem passada naquele que é, de longe, um dos melhores festivais da península ibérica. Em 2017 estamos lá outra vez.
· 04 Ago 2016 · 01:34 ·
André Gomes
andregomes@bodyspace.net

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