Globaile 2016
Lisboa
1- Jul 2016
Agora que o espectáculo acabou, deixemos aqui bem claro o nosso respeito por aquilo que os Buraka Som Sistema alcançaram numa década. Não só por terem colocado uma música de nicho, como o era o kuduro, no panorama global; essa terá sido, aliás, a menor das suas conquistas. A maior, que é resultante de duas mãos cheias de temas fantásticos, foi terem cumprido o mote que deu o título ao seu primeiro lançamento, EP tornado mini-álbum: From Buraka To The World. Os tentáculos da sua influência sentem-se agora na Príncipe, ou em qualquer produtor que se vire para a África cada vez menos distante. E o suor da sua dança, o beat destes corações, ainda aquecerá gerações vindouras - no Globaile, por exemplo, havia miúdas com não mais que dez anos a sacar moves quase tão bons como os da Blaya... De um termo meio palerma no Myspace (we call it progressive kuduro), transformaram-se em verdadeiros donos do terreno. E isso deve ser exaltado.

Esta foi a sua despedida, em "casa", perante vários milhares de pessoas (quase todas elas brancas) que acorreram aos Jardins da Torre de Belém para dizer adeus - ou será um "até já"? - a canções como "Hangover", "Sound of Kuduro", "Wawaba", "Kalemba" e tantas outras que nos foram divertindo ao longo dos últimos dez anos. Foram todas tocadas, evidentemente. Enfeitados pelos diamantes negros da praxe, os Buraka Som Sistema espalharam-se pelo palco, devolvendo em dobro o carinho que lhes era prestado. Blaya mostra como se dança, o público baixa-se a pedido e ergue-se num sobressalto, há dedicatórias a Petty em "Yah". Isto antes de subirem dezenas de miúdas ao palco (o que deixou alguns seguranças à beira de um ataque de nervos), numa atitude claramente discriminatória, porque os homens também dançam.

Se Pongo Love arrasa com "Kalemba", o último suspiro dos Buraka Som Sistema dá-se com mulheres às cavalitas do parceiro, o toque precioso de "Eskeleto" e uma incursão pelo incontornável hit de um tal Deejay Télio, cuja linguagem é imprópria para menores (ou não). Não foi o melhor concerto dos Buraka Som Sistema, e talvez o final precisasse de um pouco mais de explosão em vez do sabor amargo a anti-clímax. Mas foi uma despedida coerente e durante a qual quem não conhecia pôde entender, por breves instantes, aquilo que significa(ra)m os Buraka no Portugal do novo milénio. Melhor; foi uma despedida que não nos deixou a chorar pelo passado, mas que nos deu uma enorme confiança para o futuro. E não é qualquer banda que o consegue. O mundo pós-Buraka está a bater a porta: abram-na.

(Antes dos Buraka, os Dengue Dengue Dengue apresentaram uma cumbia rítmico-apressada perante pouca gente nas grades e muitos outros a beber, num DJ set que pautou pelo aborrecimento. Mas depois foi a vez do MC Bin Laden, o autor do genial "Tá Tranquilo, Tá Favorável", que arrastou uma multidão para junto do palco, que insultou Cristiano Ronaldo e elogiou Renato Sanches e Quaresma, que fez o sinal do héngui lúci e samplou Linkin Park. MC Bin Laden deu talvez o melhor concerto do ano, ou pelo menos o mais divertido. Mas já que a tarde-noite era dos Buraka, até parece mal dizer isto. Maiores elogios ficarão para uma próxima vez, que ele ainda há de voltar...)
· 06 Jul 2016 · 23:41 ·
Paulo Cecílio
pauloandrececilio@gmail.com

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