DAWN
Galeria Zé dos Bois, Lisboa
16- Jun 2016
Ela veio, ela veio!, gritámos, boca fora ou só pensando, mal Dawn Richard - hoje apenas D∆WN - entra em cena, iluminada por um triângulo perfeito e bordado a azul, verde e vermelho, situado bem no centro do palco da Galeria Zé dos Bois. O assombro não era para menos: estamos a falar de uma artista que nos últimos anos se dedicou a criar alguma da música mais extraordinária dos últimos tempos, uma pop que não o é bem, um r&b experimental e progressivo, um futuro com o qual não sonhávamos, sendo que todas estas expressões servem apenas para dissimular o facto de que é impossível encaixotar D∆WN em qualquer género. É uma mulher, negra e explosiva. É o orgulho do ritmo electrónico. É a Kate Bush do século XXI. Mas que importa isso, porque...

Ela veio, ela veio!, e quase que apostávamos que não o fizesse, não por desrespeito a esta magnífica sala mas porque D∆WN é senhora para encher Coliseus e MEOs Arenas, onde exibiria a sua força perante milhares de pessoas que fariam desses sítios, como fizeram da Zé dos Bois, uma rave celestial durante a qual é impossível parar por um segundo que seja. Fê-lo aqui, porque só esta família do Bairro Alto teve a coragem de a trazer cá. Fê-lo aqui, porque é dona de uma simpatia e humildade extraordinária, mesmo que não tenha tocado "Gleaux", como um certo e determinado idiota havia requisitado através de um cartaz colado na janela do aquário...

Ela veio, e trouxe com ela dois dançarinos e os majestosos teclados de "Faith", que do r&b passa para a mais maravilhosa electrónica de estádio ali no final, e o Sudoeste parece de repente o lugar mais mágico do mundo; não só isso, como também trouxe uma sensualidade que faz estremecer o próprio chão que pisa, a madeira onde dança, onde expõe os mais garbosos movimentos, a mais doce teatralidade, a mais funda das gargantas (mesmo que a dada altura tudo soe a playback...). E as mais melhores boas canções que temos ouvido. Como "Calypso". Foda-se, exactamente como "Calypso", jungle expansivo ao qual nem sequer faltou o sample da "Go", de Moby. Been waitin' so long... é só o verso que mais temos entoado desde que soubemos que D∆WN viria mesmo a Portugal.

Num espectáculo onde nem sequer faltou a omnipresente "Panda", de um tal Desiigner, a magnífica "Blow" (que motivou um espantado vocês conhecem esta merda! da sua parte, vislumbrando e ouvindo o coro da audiência) e uma incursão pelo meio da Galeria, já no final, D∆WN despediu-se passados apenas 40 minutos. Foi manifestamente pouco, e não há como dar a volta a isto. Mas durante esses 40 minutos D∆WN, Richard ou não, deu um dos melhores concertos que por ali passaram em muito tempo, um daqueles dos quais falaremos durante anos a fio, ainda mais se da próxima vez que cá vier se encontre perante não 200, mas 20 mil pessoas. Porque ela merece - é uma estrela. E porque nós também o merecemos, sedentos que estamos de algo que não seja a monotonia indie-esperta do costume. Ela veio, porra. Ela veio mesmo.
· 20 Jun 2016 · 12:31 ·
Paulo Cecílio
pauloandrececilio@gmail.com

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