Os Mutantes
Sabotage, Lisboa
7- Jun 2016
Os Mutantes já não são a banda de Rita Lee, sabemo-lo. Era ela a alma, a garra, a voz multicolor e multicultural que dava vida às canções tocadas pelo grupo, fossem elas originais ou não - uma Janis Joplin do samba que encantou gerações atrás de gerações. Hoje em dia Os Mutantes são uma banda para gringo ver, um assombro de nostalgia pelos idos anos 60 e 70 que a grande maioria dos que estão presentes no Sabotage, nesta noite de aquecimento para o Reverence, não viveram.

Não muitos; apenas os suficientes, aqueles que decidiram não passar horas no Tivoli a ver ao vivo o Kenny G do free jazz, que tocava poucas horas antes. Talvez por receio do que pudessem encontrar, por falta de fundos, porque já haviam visto Os Mutantes meses antes, no Armazém F. Pouco importa os motivos. Quem não foi perdeu, na verdade, um concerto em que a banda brasileira não só não pisou o corpo do seu passado como ainda mostrou vontade de querer por cá continuar para o futuro.

Se o primeiro tremelique ocorre em "Tecnicolor", com o baixo volume a desencantar o que deveria ter sido um mosh de luz, uma versão estupidamente eléctrica de "Bat Macumba" começou a incendiar as hostes, antes de Sérgio Dias - o último sobrevivente da equipa Mutante original - anunciar "mais uma antiga", só p'ra nóis. "A Minha Menina", canção saída do génio de Jorge Ben para alumiar os corações dos apaixonados pela mão do grupo, fez-se escutar bem alto, até por cima do coro de vozes oriundo da audiência. Como não? É um tema extraordinário.

Não só vozes, como ancas: em "Cantor De Mambo", são muitos os que dançam, em regime frenético. A festa continua garantida por "Ando Meio Desligado", que descamba numa orgia quase heavy metal, antes do thrash psicadélico de "A Hora E A Vez Do Cabelo Nascer" (e agora percebemos porque pegaram os Sepultura nisto), com o baterista a contorcer-se por cima dos pratos, e da sempre bela "Panis Et Circenses" colocarem um ponto final num concerto que foi tudo o que amamos n'Os Mutantes: alegre. Faltaram duas: "Fuga Nº II" e "Fool Metal Jack", presentes no alinhamento mas não interpretadas pelo grupo. Na verdade faltaram muitas mais, mas tendo em conta o que ali vimos nem vale a pena ficarmos chateados.
· 17 Jun 2016 · 00:02 ·
Paulo Cecílio
pauloandrececilio@gmail.com

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