AC/DC
Passeio Marítimo de Algés
7- Mai 2016
Inibamo-nos de dizer dos AC/DC que são uma "instituição". Ainda que a banda australiana cumpra os requisitos necessários para granjearem tamanha honra por parte dos fãs e dos críticos de música, o epíteto soa rude, desnecessário, até mesmo insultuosamente elitista; os AC/DC são mais que essa simples palavra, são os líderes incontestados do rock n' roll bruto, simples ao ponto da imbecilidade, e divertido até mais não - os inimigos número um dos "virtuosos", por assim dizer. É fácil dizer deles que tocam sempre a mesma música, assim como é fácil (e salutar) berrar a plenos pulmões os versos de canções intemporais como "Hells Bells", "Thunderstruck", "Back In Black", ou "Highway To Hell". Para muitos, foram a porta de entrada a esse estranho e maravilhoso mundo que é o rock, através de cassetes perdidas em casa (pertença dos pais ou das mães), ou de aparições fugazes na rádio e na televisão durante a infância.

Contudo, até uma banda com os AC/DC, que nunca quis ser mais do que uma máquina poderosa de entretenimento, ignorando quaisquer ingerências artísticas, pode cair em desgraça. Nos últimos dois anos, o azar bateu-lhes à porta como um camião TIR: primeiro, a reforma antecipada de Malcolm Young, um dos membros fundadores, abatido por essa coisa horrível que é a demência; depois, a prisão de Phil Rudd, acusado de ameaçar de morte um empregado e de posse de drogas; e, finalmente, a descoberta de que o seu vocalista de quase sempre, o bonacheirão Brian Johnson, dono de uma voz inconfundível tal qual o homem que substituiu (o saudoso Bon Scott), teria de abandonar os palcos prematuramente, sob risco de surdez - uma condição que, para um melómano, é a morte. O virar da década não foi simpático para os AC/DC, que caíram em terrenos francamente SpinalTapianos.

Junte-se isso ao anúncio de que o substituto de Johnson seria Axl Rose, um dos homens mais amados e odiados em igual medida do rock, e certamente um dos mais instáveis, e a receita para a desgraça estaria completa - ainda para mais tendo em conta que Rose cantaria a partir de um "trono", um insulto total a energia primal do rock e em particular do rock dos AC/DC: estas guitarras não são para serem tocadas ou sequer ouvidas sentadinho. Os fãs não lhes perdoaram, muitos venderam ou rasgaram os seus bilhetes para esta digressão, outros tantos afirmaram que, doravante, AC/DC só em disco e nunca mais ao vivo. São opções. Partem não do ódio, mas do amor; do poder mágico e belo das memórias.

Mas os AC/DC sobreviveram, e encheram o Passeio Marítimo de Algés de gente, apesar da chuva forte que se fez sentir ao longo de quase todo o dia - e que cessou poucos minutos após Tyler Bryant & The Shakedown, banda encarregue de fazer a primeira parte, iniciar a sua actuação. Era um sinal, um sinal de que Deus ou outra qualquer entidade aprovava nova ressurreição dos AC/DC. E era um sinal de que os fãs, mesmo debaixo de água e de mágoa, não poderiam perder a oportunidade para ver, pela primeira vez ou novamente, a "sua" banda ao vivo. Vieram de todos os lados: Inglaterra, Espanha, Moita Do Boi. Alcoolizados - porque o rock também é cerveja a rodos - e drogados - porque umas ganzazitas, mesmo depois dos 40, nunca fizeram mal a ninguém. Um ambiente belo e descontraído, um ambiente de amizade e comunhão, aquele que por ali se viu.

Mas nem o ambiente belo conseguiu superar a apreensão, que se instalou logo após "Shoot To Thrill", a segunda canção que os AC/DC tocaram em Algés. Axl Rose não é nem nunca será o substituto de Brian Johnson e, por arrasto, de Bon Scott. Porque para além de ter conseguido criar a maior mentira da história do rock n' roll - os Guns N' Roses são uma banda com dois temas bons e uma mão cheia de solos, nada mais - não é, por mais que tente, uma garganta à altura. É, sobretudo, estridência: uma maré de gatos miando acima dos 120 decibéis, o arranhar do giz na lousa da escola. É a mesma nota mantida ad nauseam, a sonolência que dá lugar à irritação...

Corresse bem ou mal, o espectáculo tinha tudo para ser épico: não é todos os dias que se vêem os AC/DC e não é todos os dias que um vocalista, vá, histórico, ocupa o lugar de outro numa banda que não o é menos. Certamente que dentro de décadas, caso ainda rastejemos por este planeta fora, contaremos à nossa prole que vimos os AC/DC com o Axl Rose - é pena é que não tenhamos grandes elogios a fazer-lhe. Rose era uma das únicas pessoas que poderia transformar o concerto dos AC/DC em algo mais que o show privado de Angus Young (que o é: aquele menino de escola tem 61 anos e ainda se pavoneia como se tivesse 15, ainda mostra no rosto o largo sorriso que deve ter tido quando escutou Chuck Berry ou Little Richard pela primeira vez, e mesmo que um solo de guitarra que se arrastou por sete ou oito minutos tenha soado largamente a punheta não há como retirar-lhe a coroa de Rei da Electricidade). Falhou miseravelmente.

A estridência dá lugar ao genocídio, quando Rose avança por "Thunderstruck" afora e a destrói em mil pedaços, fazendo-nos esquecer que esse tema em questão tem um dos riffs de guitarra mais incríveis de sempre. É certo que o desempenho de Chris Slade na bateria, que falhou miseravelmente o tempo não só nesta mas em várias outras (sendo que nesta foi demasiado evidente), também não ajudou. Mas era de Axl Rose que tudo se esperava; esperava-se que ajudasse verdadeiramente aquela que também é uma das suas bandas, esperava-se que calasse os críticos com uma actuação magnânima. A julgar pelos comentários que grassam pelas redes sociais, fê-lo com distinção; e, como se sabe, numa democracia é a maioria que impera. O que é estranho é que durante o concerto, nas filas para a cerveja que entretanto aumentaram não só devido à apatia mas também ao facto de só duas das barraquinhas do lado direito estarem a funcionar (É para faltar a luz e estar 20 minutos à espera que se pagam 2,5€ por um fino? E se fossem chular o caralho?), eram várias as vozes que connosco comentavam, em jeito de desabafo, que Axl Rose era: «um escândalo», «um pateta», «um gajo que não sabe o que está ali a fazer», ou simplesmente «mau». Isto quando não nos falavam de Joe Satriani...

Os AC/DC não ressuscitaram, mas também não morreram. O espectáculo continua igual: o palco evocando o diabo, os canhões, o sino que desce em "Hells Bells", a gritaria frenética e eléctrica daquela guitarra, e o fogo-de-artifício no final, com "For Those About To Rock (We Salute You)". Em termos visuais ninguém lhes apagará o rasto. Mas para uma banda que já leva mais de quarenta anos e que nunca quis ser ícone como os Rolling Stones ou os Beatles ou os Metallica são ícones, soube a muito, muito pouco. Não se trata de desilusão porque nunca saberíamos muito bem o que esperar desta formação. Mas podem considerá-lo tristeza. Uma tristeza amarga, porque as memórias mágicas e belas de que se falava sofreram um rombo brutal. Claro que os AC/DC, e por conseguinte o rock, não morreram - mas, no passado sábado, foram ambos internados de emergência... Resta esperar por uma solução intravenosa.
· 09 Mai 2016 · 22:07 ·
Paulo Cecílio
pauloandrececilio@gmail.com

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