Black Mountain / The Backhomes
Musicbox, Lisboa
28- Mar 2016
Nobody expects the Spanish Inquisition! Our chief weapon is surprise... E surpresa foi, de facto, aquilo que se viveu no Musicbox, naquela que foi a estreia dos colossos Black Mountain em Lisboa, depois de terem passado pelos Açores e pelo Porto. A vinda dos canadianos ao país, há muito aguardada, traduziu-se numa sala à pinha - o que não é incomum, num espaço como o Musicbox. Mas havia algo mais no ar. Talvez uma sensação de alívio, ou de dever cumprido. Talvez um sentimento de comunhão e alegria, dos mais novos aos (muito) mais velhos que ali se deslocaram. Sobretudo, uma sensação de espanto.

Espanto esse que começou logo pelas 22h, cortesia de uma não-anunciada primeira parte. Normalmente, isto seria motivo para abalar a sete pés e saciar a sede no tasco mais próximo, tantas e tantas que foram já as desilusões com primeiras partes não anunciadas - e tantos vómitos, também, como aquele que há uns meses abriu para Zola Jesus, cruz-credo. Bendita a hora que não o fizemos, porque nada nos havia preparado para a música debitada pelo duo canadiano Backhomes, e sim, que haja a perfeita consciência de que este é um nome de merda para uma banda. Mas: loops, uma drum machine, harmónica e noise melódico a rodos, uma espécie de dream stoner que não precisou do que mais de 30 segundos para captar a nossa atenção, que nos fez desejar poder voltar atrás no tempo para darmos uma chapada ao "eu" que ponderava cagar na primeira parte. Um exército de anjos marchando sobre os condenados, hosannas em decibéis elevados, e u final com um número bluesy. Minha nossa, que coisa do caralho. espanto.

Igualmente do caralho: esta coisa poderosa e tonitruante chamada Black Mountain, dona de um belíssimo disco editado este ano - simplesmente, IV - e que melhor se define com a velha máxima primeiro estranha-se, depois entranha-se. O baile cósmico proporcionado pelos teclados e moog, aliados na perfeição aos riffs que dali vão saindo (e sim, Os Black Mountain parecem ter vindo a Portugal ensinar muito boa gente o que é um riff a sério), juntamente com a voz da moçoila que ora por outra ia sorrindo: está feito um dos melhores concertos do ano ou, se não tanto, um dos melhores arranques de concerto. Bastou a sequência "Mothers Of The Sun" / "Florian Saucer Attack" (de IV) / "Stormy High" (de In The Future) para deixar toda e qualquer uma daquelas almas ali especada, sem saber muito bem o que fazer, se headbanging se moshing se chamar imediatamente o 112 porque este esgar imbecil no meu rosto só pode ser um AVC... A pilhagem dos Black Mountain ao rock psicadélico, hard, folk e outras tantas memórias antigas só pode significar uma coisa - estaremos perante os Led Zeppelin desta geração, perante uma banda que é tão capaz de compor uma canção suavemente bela como rasgar a pele e os ossos por força da electricidade. "Tyrants", "Druganaut", "Cemetery Breeding" e o encore final, com "Over & Over (The Chain)" e "Wucan" deixaram certamente as suas marcas. Salvé, porra. Salvé.
· 31 Mar 2016 · 23:32 ·
Paulo Cecílio
pauloandrececilio@gmail.com

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