The Legendary Tigerman
ZdB, Lisboa
25- Dez 2015
À medida que se avança de estação em estação num comboio praticamente deserto (culpe-se nova greve), uma dúvida atormenta o cerebelo: que andamos nós a fazer das nossas vidas se, na noite de Natal, abandonamos o conforto familiar por uma boa e salutar dose de rock n' roll? Que aconteceu ao nosso espírito de Natal e à tradição? Ah, dúvidas essas desprovidas de sentido - porque o rock n' roll é, também ele, uma família, e sair de casa para mais um concerto de Natal de Legendary Tigerman é também tradição. Nada mudou, portanto. E ainda bem.

Desta feita, a dose que o Homem-Tigre serviria na Galeria Zé dos Bois seria tripla; um fim-de-semana prolongado só com clássicos, convidados reais e virtuais, público muito (o primeiro concerto esgotou num ápice, os outros dois seguir-se-lhe-iam) e, como não poderia deixar de ser numa noite de pós-consoada, um amável bêbado indagando à porta sobre o preço dos bilhetes e reduzindo-se depois a ameaças vãs de bofetadas ou algo mais a quem teve a infelicidade de com ele se cruzar. Porquê? Porque o Natal é mágico, ora essa. Ainda se pergunta?

Ameaças que também estão presentes na primeira canção com que Tigerman abriu a noite, "Gonna Shoot My Woman", repescada ao seu primeiro álbum a solo e à história dos blues, que mais não são que uma mulher - sendo certo que há loucos capazes de se matarem tanto por uma mulher como pelos blues em si. Perguntem à Lucille, espectro que paira sobre esta música desde que B.B. King salvou uma Gibson, santa padroeira de todos aqueles que a cantam há décadas. Quando Paulo Furtado pega numa guitarra, é Lucille quem lhe guia os dedos, como o fez com todos os bluesmen dignos desse nome...

E Tigerman é digno, claro, dos mais dignos. Mesmo que as superstições, como os espectros, atemorizem de vez em quando. De "Walkin' Downtown" disse que «quando esta corre bem, tudo corre bem», e o que é certo é que a canção não correu bem - o que motivou uma gargalhada do Tigre, que mais perto do final se viu obrigado a repetir "These Boots Are Made For Walking" devido a um problema na afinação. Eu não acredito em bluexas, mas que elas existem, existem. Pelo meio ficou isto: uma enorme ovação em "The Saddest Thing To Say", retirada do, poderemos escrevê-lo, histórico Femina; uma versão de "Evil", de Howlin' Wolf, já com os amigos/convidados ou convidados/amigos em palco; e a electricidade em estado puro da segunda metade do concerto, em que "Wild Beast", "Naked Blues" e "Twenty First Century Rock'n'Roll", esta última como sempre transformada em dez ou mais minutos de puro gozo, soaram tão altas como a estrela de Belém. No encore houve ainda espaço para "Life Ain't Enough For You", como uma espécie de prenda àqueles que marcaram presença. Falávamos do Natal? O rock é que é quando um Homem-Tigre quiser.
· 27 Dez 2015 · 21:55 ·
Paulo Cecílio
pauloandrececilio@gmail.com

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