Andrew Bird
Lux, Lisboa
06 Set 2005

Este ano tem havido um surto de discos supostamente bons de violinistas transformados em escritores de canções. Patrick Wolf, Final Fantasy e Andrew Bird são nomes que vêm à cabeça. A estrela aqui não é Patrick eu-tenho-a-mania-que-sou-sem-abrigo-mas-sou-burguês Wolf nem Owen eu-tenho-cabelo-descolorado-e-sou-dos-Arcade-Fire Pallett dos Final Fantasy, mas sim Andrew Bird. O problema é que é Andrew Bird não é violinista. Até o vermos ao vivo pensávamos que sim. Não, longe disso, Andrew Bird não é violinista nem guitarrista nem vocalista nem escritor de canções. Andrew Bird é assobiador. Sim, daí o nome, já que é quase um pássaro a assobiar.

© Luís Bento

Andrew Bird & the Mysterious Production of Eggs é um clássico instantâneo, que não tem tantos assobios assim, mas que dá vontade de assobiar cada pedaço de melodia. E as canções, todas elas, são enormes. Ao vivo, Andrew Bird apresenta-se sozinho, com uma guitarra, um violino e pedais para samplar tudo aquilo que toca. É um tipo magrinho, jovem, tímido, que esconde um escritor de canções fenomenal e um assobiador nato. Começa a assobiar e a cantar com a sua guitarra, qual cowboy solitário ali no meio. Vai tocando o seu violino, samplando, voltando a tocar, criando camadas e camadas e conseguindo, até certo ponto, reproduzir aquilo que ouvimos em disco. Depois pega na guitarra e vai cantando ou assobiando. E as canções resistem todas ao one-man show que está em palco, mesmo que se alterem pedacinhos das mesmas.

Enquanto toca, não parece estar a esforçar-se, mas há um contraste tremendamente interessante: Andrew Bird tem vários tiques em palco, tanto a cantar como a tocar, mexe muito os olhos, olha para cima, olha para os lados, levanta os pés, as pernas, mexe-se e contorce-se todo. Daí que não seja estranho que, ao falar de como vai tocar "A nervous tic Motion of the Head to the Left" vire mesmo a cabeça de forma nervosa para a esquerda. As melodias de violino, que por vezes toca como se de uma guitarra se tratasse, vão-nos encantando, de vez em quando pára para tocar mesmo alguma coisa, mas o foco do espectáculo é o seu portentoso assobio.

Bird já tem uns anos disto, mas só em The Mysterious Production of Eggs é que acertou de vez e o público e a crítica a ele se renderam. "Sovay", "Fake Palindromes", "Banking on a Myth", são tudo canções intemporais que se entranham logo que as ouvimos. Mas é obviamente difícil andar em todas as canções a criar, elemento por elemento, uma base de violino, pelo que em "Fake Palindromes", com o riff de violino mais brutal e viciante do ano, Bird escolhe apenas disparar samples, não tocando. Não é que seja muito difícil para ele tocar (Andrew Bird é um "músico a sério", com anos de formação clássica), mas é difícil conjugar a guitarra (que guarda às vezes às costas, para não perder tempo a ir buscá-la) e o violino. Há falsas partidas (é difícil acertar no pedal para samplar, é difícil fazer tudo certo à primeira), que podem fazer com que Bird pareça desastrado, mas nada disso interessa. A meio de "Fake Palindromes" "esquece-se" duma parte da letra, parando e perguntando ao público como é. Diz que teve um aneurisma e se esqueceu. Será encenado? Será verdadeiro? Não interessa nada.

Quase nem passa uma hora e Bird anuncia que esta é a sua última canção. Toca-a e vai-se embora, voltando. Agora o seu cabelo está em pé e, se fecharmos os olhos e se estiver a tocar guitarra, parece-nos Jeff Buckley. Até mesmo pela voz. É assustador. Mas enquanto Jeff Buckley (e Rufus Wainwright, o seu sucedâneo mais comtemporâneo) eram/são muito sofridos (não no mau sentido) a cantar, Andrew Bird canta normalmente, sem qualquer esforço, como se aquilo fizesse todo o sentido do mundo para ele. Há mais um encore e Bird, visivelmente cansado, vai-se embora de vez, agradecendo a todos.

Entre canções sobre o Apocalipse (houve duas, uma delas chamada "Armchair Apocalypse", é algo que lhe tem passado pela cabeça nos últimos tempos), canções sobre como as crianças podem ser más e aquele assobio constante, houve a intemporalidade da voz e das melodias de Andrew Bird. Quer esteja a desbundar no violino, quer esteja a levantar as pernas e a contorcer-se todo, quer esteja a piscar os olhos e a cantar à guitarra, ou quer esteja a assobiar, está a entreter. Mesmo estando apenas uma pessoa em palco, não ligamos a isso, pois há aquela voz, aquele assobio, aquele violino e aquela guitarra (a mais fraca dos quatro, mas isso também não interessa). Há Andrew Bird. E chega.

· 06 Set 2005 · 08:00 ·
Rodrigo Nogueira
rodrigo.nogueira@bodyspace.net

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