Gisela João
Coliseu dos Recreios, Lisboa
31- Jan 2015
Um ano depois de ter dado o seu primeiro grande concerto em Lisboa (a 25 Janeiro 2014 no CCB), Gisela João apresentou-se agora no Coliseu dos Recreios. A fadista mostrou em Lisboa o mesmo espectáculo com que presenteou, uma semana antes, o Coliseu do Porto. Ainda sem notícias quanto a novo disco, o alinhamento do concerto passou por repescar algum material do primeiro disco homónimo, ao qual se juntou muito material inédito.

Foi mesmo com dois temas novos que o concerto arrancou, seguindo-se um tema já conhecido: “Vieste do fim do mundo”. Acompanhada pela sua equipa do costume - Ricardo Parreira (guitarra portuguesa), Francisco Gaspar (guitarra baixo) e Nelson Aleixo (“viola”) - Gisela foi desfolhando os temas com intensidade e emoção, não escondendo a sua incrível capacidade vocal. Entre os temas foram surgindo interlúdios pré-gravados com a voz de Gisela, chamados “diários de bordo”, que num tom mais pessoal iam marcando a evolução do espectáculo.

© Estelle Valente

Ainda na fase inicial surgiu uma óptima surpresa: a interpretação fadista de “O Senhor Extraterrestre”, um atípico e divertido tema, escrito por Carlos Paião e gravado por Amália Rodrigues. A ligação a Amália, que até agora nunca tinha sido claramente assumida, foi aqui revelada e voltou a ser reforçada ao longo de toda a actuação. O alinhamento continuou a apresentar temas novos, mas um dos momentos mais ovacionados aconteceu quando Gisela cantou “Meu amigo está longe”.

Entre os novos temas destacaram-se as óptimas revisões de “Pomba Branca” de Max, “Arraial (Fado Pintéus)” de João Ferreira Rosa e “Meu corpo” (popularizado por Beatriz da Conceição, letra de Ary dos Santos). Gisela apresentou ainda um tema novo sobre o São João do Porto, com letra de Capicua - que já lhe tinha reinventado a letra d’“(A Casa da) Mariquinhas”. Houve ainda o clássico “Deus me perdoe”, num inevitável regresso a Amália.

© Estelle Valente

A costela minhota da fadista natural de Barcelos foi guardada para o final, primeiro com a interpretação de “Malhões e vira” e depois com a entrada em palco de um rancho folclórico minhoto, para acompanhar o fecho do concerto no tema popular “Valentim” (“Adeus casa de meu pai / Adeus largo do quinteiro / Quero o Valentim olaró-laró / Quero o Valentim olaró meu bem”) - canção que Amália chegou também a gravar.

Para os dois encores Gisela resgatou alguns dos grandes temas do disco, “Madrugada sem sono”, “Antigamente”, “Bailarico Saloio” e o inédito “Julguei endoidecer” (que já tinha cantado no CCB, há um ano). Mostrando um alinhamento vasto, deixando mesmo de fora alguns temas fortes do disco de 2013 (sobrou a saudade de “Não venhas tarde”), Gisela revelou que já não está dependente desse disco. Fica a curiosidade com o que aí vem.
· 02 Fev 2015 · 17:38 ·
Nuno Catarino
nunocatarino@gmail.com

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