The Legendary Tigerman
Galeria Zé dos Bois, Lisboa
25- Dez 2014
Eis-nos de volta à Zé dos Bois para matar as saudades do rock n' roll. E, em noite de Natal, sabe ainda melhor: sabe a subversão, sabe a resistência, sabe a luta contra uma tradição arcaica. Já não é tempo de se ficar durante dois dias fechado em casa com a tia-avó impregnada de tabaco, ou com o pai bêbado que desfila inanidades em frente a uma câmara de filmar - no século XXI, um iPhone. Hoje em dia, pegamos no sobretudo e percorremos Lisboa à procura de outra forma de vida, ou apenas de uma cerveja barata.

© Luís Sousa - http://www.musicaemdx.pt/

No entanto, também estas visitas de Paulo Furtado, o lendário homem-tigre, se tornaram tradição. Daí que, ainda antes de a porta da Galeria se abrir, já uma multidão forme uma fila considerável à busca de um dos últimos bilhetes mágicos que garantiria o acesso ao espaço, numa vibe de sete cães a um osso. Neste caso, duas dúzias de cães em busca de escassos seis ossos. Nem todos tiveram a mesma sorte. Aqueles que a tiveram, encontraram Furtado de sorriso enorme no rosto enquanto começa com "Rainy Nights", tema retirado do mais recente True. «Eu gostava que estivesse a chover...»

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Mas não estava, e lá em cima todas as estrelas que não a de Belém iam reluzindo sob a boémia. Quase tão brilhantes como os ecrãs dos telemóveis, que disparavam de dez em dez segundos, porque as redes sociais precisam de saber que hoje, dia 25 de Dezembro de 2014, este público não ficou em casa. Tão incomodativo que o próprio chega a sugerir que «os coloquem em modo avião», tão irritante que a nossa pergunta, feita mentalmente, é inevitavelmente a do costume: "esta gente pagou 15€ para vir tirar fotografias ranhosas e conversar durante o concerto todo?". Uma pergunta que, infelizmente, começa também a tornar-se tradição. Quem sabe? Talvez tenham saído de casa precisamente para estrear os seus novíssimos aparelhos topo de gama, prendas de pais ou amantes ou amigos ou empresas. Se assim for, esperemos que tenham captado todos os momentos da bela "Do Come Home" e da velhinha "Walkin' Downtown", uma das poucas canções dos álbuns mais antigos que Furtado aqui tocou. Até porque, ao contrário da última sessão Fuck Christmas a que aqui assistimos (em 2011), Tigerman editou um disco novo este ano. Não esquecer.

© Luís Sousa - http://www.musicaemdx.pt/

Trazendo consigo uma mão cheia de convidados, entre uma virtual Lisa Kekaula ou um muito real Afonso Rodrigues - vulgo Sean Riley -, Paulo Furtado cumpriu os dois propósitos deste tipo de noites. O primeiro, aquele que é o seu modus operandi ou parece ser, fê-lo na perfeição: não deixou o rock n' roll morrer. Para isso contribuíram temas como "Twenty Flight Rock", também de True e original de Eddie Cochran com a presença de João Cabrita no saxofone, "These Boots Are Made For Walkin'", resgatada tanto a Nancy Sinatra como a Femina (de 2009), a inigualável "Honey, You're Too Much" e um final estonteante com "Twenty First Century Rock'n'Roll" a dar vontade de, como diz na canção, incendiar Lisboa ao som destas guitarras. Quanto ao segundo propósito, o de deixar esta gente feliz em noite de Natal longe da família, parece-nos ter igualmente sido cumprido. Se assim não fosse não haveria tanta gente alegre após "Love Ride", última canção da noite, no encore. Para o ano, cá estaremos?
· 30 Dez 2014 · 12:55 ·
Paulo Cecílio
pauloandrececilio@gmail.com

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