Mão Morta
Incrível Almadense
1- Nov 2014
Admirável mundo este em que um golão de Brahimi não consegue valer nem metade de um concerto dos Mão Morta. Porque os bracarenses serão sempre iguais a si mesmos, seja com que disco for; não se pode esperar outra coisa que não aquilo que fez com que nos apaixonássemos por eles em primeiro lugar, aquilo que continua a determiná-los como a melhor banda nascida em solo nacional desde 1143 - o cruzar entre poesia e rock, as poses teatrais do seu icónico vocalista, a capacidade para nunca se resignarem àquilo que o público lhes pede, seja "Budapeste" nos anos noventa ou "1º De Novembro" nesta noite que o era.

© Rita Sousa Vieira

Admirável mundo, também, este que vê uma sala encher-se de fãs, jovens e menos jovens, estes últimos cedendo à pressão do álcool como se ainda fossem jovens e abrindo o circle pit para que o corpo sentisse toda a fúria daquelas canções, tocadas a escassos três metros de si. Isto a partir de "Quero Morder-te As Mãos", canção que figura sem sombra de dúvida no top dez das melhores dos Mão Morta, sendo que isto é, naturalmente, subjectivo. Mas como não figurar? O teu sexo pelado faz de mim um escravo...

Num concerto inserido na tour do recente e óptimo Pelo Meu Relógio São Horas De Matar, os Mão Morta viram-se obrigados a resgatar um baterista aos Supernada (Ruca Lacerda), e, devido a isso, a cingir o seu repertório a duas mãos cheias (mortas) de canções, nenhuma das quais era a supracitada "1º De Novembro", ou as requisitadas "Morgue", "Cão Da Morte" ou "Aum", de nada valendo a sessão de democracia participativa que Adolfo Luxúria Canibal proporcionou aos presentes.

Mas houve, por exemplo, "Pássaros A Esvoaçar", com o próprio a estender os braços ao público à procura de um naco de pão e a receber inúmeras t-shirts às quais, prontamente, limpa o suor que lhe escorre pela face, para gáudio da audiência. E houve "Oub'Lá", "Vamos Fugir", "Velocidade Escaldante", "Anarquista Duval" e até pedidos para que o público tirasse a roupa, após o relembrar de uma história passada neste mesmo Incrível Almadense, em que uma fã mais espontânea dançou em palco, mostrando os seios. Tal não ocorreu nesta noite, mas o concerto a que aqui se assistiu ficará, certamente, escrito no grande livro da mitologia Mão Morta. Como o ficam todos, aliás. Também pelo nosso relógio são horas de matar.
· 04 Nov 2014 · 22:52 ·
Paulo Cecílio
pauloandrececilio@gmail.com

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