Amplifest
Hard Club, Porto
04-05 Out 2014
Há uma frase gasta em tempos recentes segundo a qual “o resto é ruído”. A frase é em si um trocadilho com uma outra, da autoria de um dos incontornáveis da literatura mundial que escreveu que “o resto é silêncio”. Portanto, ficamos entre o ruído e o silêncio, consoante a escolha filosófica de cada qual. Filosófica porque nenhuma das opções é viável em termos absolutos. John Cage quis silêncio total e não conseguiu. Será o ruído branco o ruído pleno? Perante uma muralha de som não terei eu a capacidade de me refugiar algures na minha imaginação? Se eu for partidário do silêncio, que efeito tem em mim o ruído total e vice-versa? A partir de que momento é que o som nos desgasta fisicamente? Quando é que a repetição deixa de ser uma legítima ferramenta criativa?

As perguntas que coloco – e muitas mais - assolaram-me durante o mais recente concerto de Swans em Portugal, no âmbito da quarta edição do sempre excelente Amplifest. Swans serão sempre Swans, mas a constatação do óbvio não invalida o pensamento reminiscente do Barry do Alta Fidelidade: Será injusto criticar um artista anteriormente grande pelos seus pecados recentes? Que não se depreenda da questão uma crítica a Swans. Michael Gira sempre funcionou e chafurdou no pecado. Mas. Há sempre um mas. A repetição sem limite nem restrição (limites e restrições são palavras fora do léxico) gera um inevitável cansaço. Se em determinada forma, feitio e conteúdo consegue ser transcendente (adjectivo fundamental do léxico), há um momento – ou vários – em que atravessa o ponto do desafiante para ser, mera e infelizmente, masturbação sonora sem orgasmo. Masoquista sem o prazer.

O longo concerto de Swans no sábado à noite tinha, como todos, expectativas altas, mas que ficaram por cumprir. Aquilo que em 40 minutos ou numa hora se condensa numa experiência violenta capaz de fazer o melhor de nós sacar de uma lâmina afiada e dar azo à imaginação com uns cortes aqui e acolá em puro deleite e satisfação extrema de ver uma gota de sangue sair de si mesmo transforma-se numa aula. Numa massacrante aula de um qualquer tema infernal que consigam conceber (o meu é semiótica). No meio do som, perguntava-me como será William Basinski ao vivo. Ou como teria sido estar naquela sala em que a peça de Erik Satie foi interpretada 840 vezes pela primeira vez. Lembrava-me com alguma nostalgia dos concertos de Sunn O))). Swans tinham uma espantosa capacidade para resumir em alguns minutos toda a violência do mundo. Queria ser espancado pela percussão da “Like a Drug” e ter o meu coração em arritmias ao som de “Fool”. Se calhar é a isso que tudo isto se resume: Tenho saudades de Swans antigo. Os que eu nunca vi. Porém, sabe-se que não é só isso. É a sensação de que aquela cacetada mental toda está oca. Deixou de estar preenchida.

Mais estimulante foi a parceira de digressão de Swans, que dá pelo nome de Pharmakon e tocou na sala 2 do Hard Club depois da banda de Michael Gira. Margaret Chardiet faz algo cheio de energia e de fúria. Algo electrizante. Aquelas dezenas de minutos bem que podiam ter sido mais, porque passaram a voar. Ela gritou. Caminhou pelo palco. Gritou mais. Saltou para o meio de um público anestesiado e gritou. Gritou. Gritou. “I don't belong here”, num tom macabro entre o choro e a exigência. Fez diagonais por entre o público, lançou setas aos ouvidos de quem lá esteve. Pharmakon foi profundo e foi bom. Quase como extra, mostrou a uns mansos Hexis como é que se dá intensidade a um concerto. Não é por se ter uma bateria em contínuo que o espectro sonoro e emocional se torna interessante. Nesse campo, já no domingo, a sala 2 manteve a linha de actuações cativantes, apesar da ausência de Urfaust por motivos familiares, com Wolvserpent, um duo muito mais estrondoso ao vivo do que aquilo que transparece em álbum. Hipnotizantes e com mérito próprio. A dada altura, fui comprar o mais recente álbum da banda, “Perigaea Antahkarana”. O rapaz da banca diz-me: “Se achas que esta é boa nem imaginas a que vem a seguir. Mas ainda tens uns 20 minutos para voltar lá para dentro”. E ri-se.

A propósito de intensidade, Ben Frost também é bem versado nessa linguagem. A sequência Pharmakon – Frost foi particularmente prendada. A primeira um vendaval enraivecido de electrónica crua, o segundo um nevoeiro denso e negro, calculado e inteligente. O primeiro contacto do autor deste texto com Frost foi em 2009 quando vi a instalação “There Are No Others, There Is Only Us” de Marc Silver, com banda sonora de um tal Ben Frost. A evolução do músico é notável e roça o difícil de acreditar. “A U R O R A” não atingirá a intensidade de “By The Throat”, mas claramente não o pretende fazer. Vive noutra dimensão, em que tudo é controlado. Frost é dos mais interessantes artistas de música electrónica da actualidade e foi um privilégio vê-lo no Porto.

Não tenho dificuldades em escrever que o Amplifest de 2014 foi o melhor em que estive desde o primeiro, em 2011. Continua imaculadamente bem organizado, com horários cumpridos e uma circulação entre os espaços sem qualquer dificuldade. O cartaz deste ano foi sem dúvida o mais interessante, não obstante o que continha Godspeed You! Black Emperor, que ofuscam tudo o resto. Mais eclético, mais forte, mais completo. Se o quarto ano foi assim, aguardo com ansiedade o anúncio de como vai ser assinalada a marca semi-redonda do quinto aniversário para o ano.
· 08 Out 2014 · 20:41 ·
Tiago Dias
tdiasferreira@gmail.com

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