Jazz Em Agosto 2005
Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa
05-13 Ago 2005
O Jazz Em Agosto é um festival com características muito próprias. Em primeiro lugar, apesar de se realizar em pleno Verão, não é invadido por milhares de jovens em busca de música, álcool e sexo ocasional - felizmente. Também se distancia dos restantes festivais de jazz portugueses pelas apostas na quantidade (17 concertos nesta edição), na qualidade (sempre com grandes nomes internacionais) e na diferença – atenção à música nova, free jazz, música improvisada. E é este último item que torna este festival tão único – quem frequenta o festival de jazz da Fundação Calouste Gulbenkian já sabe que não vai encontrar artistas comprometidos, mainstream ou pouco originais. Quem frequenta sabe também que deve estar preparado para descobrir música nova várias vezes ao dia: é condição essencial ter o espírito aberto, vontade de descobrir, muita curiosidade. A edição deste ano recebeu alguns dos nomes maiores do free: Evan Parker, Alexander Von Schlippenbach, Paul Lovens, Manfred Schoof, Axel Dörner, Herb Robertson, Bruno Chevillon, Paal Nilsen-Love, Mark Dresser, Ikue Mori, entre outros. A variedade de propostas invadiu o espaço da Gulbenkian e durante uma semana a música foi livre.


Globe Unity Orchestra
A inauguração do festival Jazz Em Agosto 2005 não poderia ser mais prometedora. A Globe Unity Orchestra apresentou no palco do anfiteatro ao ar livre onze dos melhores intérpretes europeus da música free. O concerto abriu com a bonita dedicatória à memória do recentemente falecido Albert Mangelsdorff, também ele membro deste grupo durante anos. Depois a música começou, numa peça única que ocupou a hora e meia de concerto. O grupo fundado pelo pianista alemão Alexander Von Schlippenbach deu um concerto poderoso, assente em improvisação completa, sem quaisquer marcações prévias, dependente apenas da inspiração dos intérpretes. E os músicos aplicaram-se com grande dedicação, construindo música sólida e atraente. Como acontece na música improvisada, e neste caso tratando-se de onze vozes com personalidades diferentes, por vezes chega-se a momentos mais inócuos, mas neste concerto raras vezes isto aconteceu, verificando-se antes várias ocasiões em que o grupo partilhou entrosamento em clímaxes desejados. Entre tantos instrumentistas de alto calibre é difícil fazer distinções, mas alguns estiveram mais em evidência. Rudi Mahall, agarrado ao clarinete baixo - a extensão natural do seu corpo alto e esguio - foi um dos mais activos dinamizadores do concerto. Von Schlippenbach, ao piano, liderou e deu pistas, Evan Parker, Manfred Schoof e restante trupe seguiram-no, disparando ideias. Paul Lovens, ao lado de Paul Lytton, foi também dos mais interventivos e não se acanhou em mostrar o seu talento superior. O único senão foi ver tanta aptidão individual “escondida” no trabalho de equipa, sem espaço nem possibilidade para expressar melhor as ideias próprias que formações mais pequenas possibilitariam (mas no dia seguinte o trio de Schlippenbach iria resolver esta situação, pelo menos com três elementos desta formação).

Bruno Chevillon / Jean-Marc Foltz
Bruno Chevillon é provavelmente o contrabaixista mais fashion do mundo. Fez-se acompanhar por uma enorme parafernália de invulgares acessórios e com o seu “violino gigante” arranhou sons e inventou coisas novas (as experimentações com as molas de roupa, como algumas outras, conseguiram produzir um efeito engraçado). Jean-Marc Foltz começou no clarinete para depois passar para o clarinete baixo (e a segunda música em que esteve no clarinete baixo, quarta música do concerto, terá sido a mais atraente). A dupla desvendou a sua música composta por diálogos de pontas soltas e melodias curtas de geração espontânea. Urgente, às vezes envolvente, inconsequente noutras alturas. Nota-se que há muitas ideias e um processo de filtragem poderia levar a resultados mais brilhantes. Esta música não é fácil e solicita atenção ao ouvinte, por isso o melhor é ir directamente ao disco, recentemente editado, Cette Opacité (Clean Feed, 2005) e escutar com o cuidado que esta música exige.

Alexander Von Schlippenbach / Evan Parker / Paul Lovens
O Grande Auditório da Gulbenkian encheu-se para acolher o Grande Trio: Alexander Von Schlippenbach (piano), Evan Parker (saxofones tenor e soprano) e Paul Lovens (bateria), juntos e ao vivo. O famoso trio teve a gentileza de nos presentear com um concerto magnífico: música intensíssima, absolutamente livre, pertinente e cheia de graça. Os três músicos facilmente demonstraram porque são universalmente considerados três dos maiores executores contemporâneos do free jazz. Von Schlippenbach, apesar de dar o nome ao grupo, partilhou democraticamente a direcção do barco e este foi navegando seguro consoante a força de cada remador. Evan Parker transformou os saxofones em lança-chamas e a aquela música queimava a pele. Paul Lovens esteve sublime. Foi um mestre de subtileza, escondendo-se em contenção, mas sempre presente e explosivo nos rebentamentos de ritmo. Schlippenbach, incessantemente atento, completou a trindade admirável. Os diálogos bateria/piano foram soberbos, o saxofone impunha-se quando era chamado, as detonações seguiam-se. Com estes músicos nada é simples, nada é feito à toa, nada está em excesso. Os privilegiados que estiveram no auditório assistiram a uma cerimónia raríssima de três músicos em comunhão perfeita. Nós por cá não somos muito de acreditar nessas coisas, mas entre estes indivíduos haverá certamente comunicação telepática. Absolutamente brilhante.

Gebhard Ullmann’s Ta Lam Zehn
O grupo “Ta Lam Zehn” de Gebhard Ullmann, decateto composto por nove berlinenses e um suíço, trouxe a sua música eminentemente germânica: organizada e complexa, rigorosamente calculada mas com espaço aberto para improvisação. Neste festival foi a primeira formação onde se evidenciou, mais que tudo, o trabalho de composição. O grupo é constituído por um acordeão e uma família de sopros – e veio a família toda: irmãos (saxofones soprano, alto, tenor e barítono) e primos (clarinete, clarinete baixo, clarinete alto e flautas). Os sopros formam uma massa consistente e o acordeão permite uma sonoridade distante mas que assenta bem no grupo. O conceito deste grupo, muito simplificado, consiste na construção de uma barreira de som, onde se trabalha em equipa no acompanhamento de melodias pré-concebidas. E pelo meio desta cortina de som, enquanto o colectivo desenrola a composição, o(s) solista(s) insinua(m)-se. O resultado é quase sempre agradável, embora em alguns momentos se torne pouco entusiasmante. É de louvar a afinadíssima orgânica de grupo, assente numa complexidade de arranjos. Lamenta-se no entanto que o excesso de rigor leve à castração de uma música que anseia por mais ar para respirar. Os temas, quase todos originais, alternaram com dois clássicos de Kurt Weill: “Speak Low” e o famosíssimo “Die Moritat Von Mackie Messer” (ou “Mack, the Knife”). Da Alemanha com (algum) calor.

Jean Luc Cappozzo / Herb Robertson / Axel Dörner
Quando, no pequeno espaço da Sala Polivalente, nos deparamos com um imenso arsenal de trompetes, surdinas e demais acessórios pensamos que entramos na porta errada e que afinal fomos parar a uma exposição de venda de instrumentos musicais e afins. Afinal não, era mesmo ali. Numa estreia mundial, os três trompetistas Jean Luc Cappozzo, Herb Robertson e Axel Dörner fizeram-se acompanhar de uma enorme parafernália de objectos para explorar todas as potencialidades do seu instrumento. E se é verdade que, à partida, a ideia prometia, a sua concretização incorporou alguns riscos. Nesta tripla abordagem avant-garde, Cappozzo, Robertson e Dörner afastaram-se dos modelos rotineiros para abordar experiências onde a melodia esteve pouco presente. Apesar do radicalismo da abordagem, conseguiram gerar-se algumas sinergias, embora por vezes a dispersão fosse inevitável. Herb Robertson foi o mais ousado, insistindo em arrancar sons de todos os jeitos e modos. Cappozzo teve uma prestação equilibrada, trabalhando alguns solos conseguidos. E Axel Dörner foi o mais elegante, patenteando uma sonoridade menos enfatuada mas extremamente precisa. Resumindo: a técnica de Clifford Brown, o génio de Miles Davis, o lirismo branco de Chet Baker e as revoluções de Wadada Leo Smith – tudo misturado, triturado e revisto à luz da contemporaneidade.

Irène Schweizer / Pierre Favre
Esta dupla de sexagenários foi uma das boas “surpresas” do festival. O duo Irène Schweizer / Pierre Favre conseguiu uma actuação que foi das favoritas do público, com a sua sonoridade mais aproximada ao jazz convencional. Os dois suíços revelaram um entendimento sem igual, comunicação permanente: o piano tracejava melodias, a bateria seguia e apresentava novas ideias. Por vezes o piano desenhava padrões da marca registada Jarrett-solo, noutros momentos ausentava-se para outros pântanos de som, conseguindo no plano global uma sonoridade característica. No conjunto, uma pintura a quatro mãos que, sem entrar em loucuras, edificou um das estruturas mais agradáveis.

Atomic
A música quente que veio do frio? A crítica musical costuma ser muito dada a este tipo de comentários, clichés e frases feitas. Mas neste caso a frase introdutória é extremamente bem aplicada porque o quinteto conseguiu, ao terceiro dia, uma das actuações mais calorosas do festival. O grupo Atomic é constituído por cinco músicos provenientes da Noruega e Suécia, países com forte tradição jazzística, e os rapazes tratam de seguir a tradição. Do bebop dos ’40s ao free europeu dos ’00s, faz-se uma viagem directa sem paragens nem apeadeiros. Tão depressa o grupo desembrulha uma melodia rápida reminiscente da escola hardbop como no instante a seguir salta para devaneios de contornos indefinidos onde há só uma regra, tocar com muita força. E assim se mostra que para fazer a diferença não é necessário virtuosismo exacerbado ou técnica perfeita, por vezes basta a vontade e muita pujança. Estes nórdicos atacam os instrumentos com uma garra invulgar e conquistam a plateia, intercalando temas da sua discografia, com particular incidência no mais recente registo The Bikini Tapes (Jazzland, 2005). Foi, sem dúvida, um dos momentos mais elevados do festival. Para classificar a música deste quinteto nórdico, uma palavra (ou duas): energia (atómica).

Sound of Choice / IXI String Quartet
Tentar a intersecção entre universos musicais díspares é uma tarefa sempre arriscada. O trio dinamarquês Sound of Choice não teve receio e convidou o quarteto de cordas fracês IXI String Quartet para um confronto amigável a que chamou “Invisible Correspondence”. E a verdade é que esta reunião se revelou uma boa surpresa. Apesar do afastamento de universos, as texturas clássicas do IXI String Trio conseguiram adaptar-se às improvisações rock-oriented dos Sound of Choice, resultando uma boa sonoridade e entrosamento. Enquanto as cordas erguiam paisagens, o trio apanhava boleia para conduzir o veículo durante o resto da viagem. O grupo dinamarquês teve no guitarrista um bom líder e orientador, mas os restantes membros do trio (saxofone e bateria) foram menos seguros - uma compensação foi a utilização da electrónica que, apesar de discreta, deu um toque distinto. Já o quarteto de cordas esteve em bom plano, exímio sempre que foi chamado a intervir. Apesar de algumas deficiências, desvios e afastamentos, conseguiu-se uma unidade sonora – o propósito principal da reunião.

RAUM
Ao quinto dia de concertos chegou a vez de participar uma formação portuguesa. O RAUM, ensemble dirigido pelo guitarrista Paulo Dias Duarte, apresentou ao vivo o projecto “Sete Pecado Mortais” que acaba de ser lançado em disco (ed. Ninho de Vespas, 2005). E o bando entrou logo a matar, disparando durante breves minutos música flamejante. Mas logo de seguida a música amoleceu, enveredando por campos melódicos – de notar que a composição está também a cargo do orientador-guitarrista. A prestação do grupo oscilou assim entre as melodias preparadas, alguns solos e ocasiões de deliberado caos colectivo. E será na improvisação colectiva que o grupo marca mais pontos. Apesar de possuir alguns bons improvisadores a nível individual (o guitarrista Duarte ou o trombonista, que trajava uma catita T-shirt Blue Note), verifica-se o desequilíbrio com outros elementos menos fortes na criação livre. A execução ao vivo deste projecto permitiu constatar ainda que o trabalho de composição e arranjos se revela eficiente e meritório, na inteligente compensação de níveis de melodia suave com excessos de libertação bruta. Resta desejar que este grupo continue a desenvolver um bom trabalho, sempre a evoluir.

Mark Dresser / Denman Maroney / Michael Sarin
Antes de mais, importa questionar o agendamento dos concertos: como se justifica programar concertos para as 15h30 e 18h30 de dias úteis? Se os interessados estão a trabalhar torna-se impossível assistir a estes concertos; se estão de férias, provavelmente não estarão em Lisboa. Coloca-se esta questão para tentar perceber como pode um concerto como o do grande trio Dresser/Maroney/Sarin ter uma sala (Grande Auditório) quase vazia. Felizmente os músicos abstraíram-se da pobre envolvência e deram uma lição de música grandiosa. Mark Dresser é possuidor de um magnetismo incrível, com o contrabaixo conseguiu fazer tudo e deixou os colegas de trio ofuscados pelo seu brilho. Maroney fez-se notar, e bem, ora arrancando sequências de notas perfeitas, ora buscando sons transformados - através da sua técnica pessoal do “hiperpiano”. Michael Sarin, o baterista que fez nome no Thomas Chapin Trio, acompanhou o nível superior dos companheiros de música e impôs a sua voz nesta conversa a três. E a conversa desenrolou-se sem sobressaltos, com um pé no jazz convencional, nas referências harmónicas e melódicas, mas sem descuidar a aventura da experimentação - tudo harmonizado por Dresser, omnipresente. A certa altura é apresentado um tema: “«M.C.», as in M.C.Escher” – a referência não podia calhar melhor, a música deste trio é comparável à nobreza gráfica das construções insólitas, cerebrais e perfeitas de Escher. O último tema teve uma dedicatória para a escritora Yvonne Vera (autora do livro The Stone Virgins) e encheu-se de leves reminiscências à música africana. Foi um concerto de grandes músicos com grande música - os três deram um final de tarde feliz àqueles (poucos) que os quiseram ver. Apesar da curta duração (uma hora, veloz), tratou-se de um highlight memorável do Jazz Em Agosto 2005.

Jerry Granelli’s V16 Project
Jerry Granelli é um veterano baterista que, tendo participado num sem-número de projectos, já mostrou que é um imenso músico, inovador e arrojado. Mas infelizmente o V16 Project não será dos seus melhores trabalhos. Investindo com toda a força na electricidade, esta formação é composta, para além da bateria de Granelli, por duas guitarras eléctricas e um baixo. O resultado desta instrumentação é uma fusão jazz-rock-qualquer-coisa que por vezes relembra as viagens planantes do rock progressivo ou retoma as lembranças dos mais chatos clichés da guitarra jazz. Alternando entre estas referências, sem nunca propor nada de novo, esta música afirma-se extremamente desinteressante – para lá de híbrida, é dolente e redundante. A chama aparece quando Granelli faz truques na bateria e abana a situação. Mas isto não chega para salvar a honra do convento. Foi só um concerto, é certo. O respeito por Granelli, esse, mantém-se intacto.

Jorge Lima Barreto
O segundo nome português a entrar em cena foi o já histórico Jorge Lima Barreto, que expôs o seu projecto “Sintagmas de Jazz”, um trabalho que utiliza como suportes o piano preparado e rádio de ondas-curtas, para além de uma enigmática projecção vídeo de “formigueiro” típico de televisor avariado. Barreto teve no rádio de ondas-curtas um mero acessório, rapidamente convertido em elemento decorativo. A acção principal decorreu ao piano e foi ao leme do piano “destapado” que o músico-divulgador desenvolveu um eloquente discurso de free jazz. Insistindo na liberdade constante, os sintagmas de Barreto passaram pela construção de esquemas de som baseados na linguagem da improvisação pura e dura, sem concessões. A martelar nas teclas, a insinuar melodias ou atacando o piano com um rol alargado de acessórios de culinária, Jorge Lima Barreto demonstrou a validade urgente do seu som. E assim se garantiu um portentoso espectáculo da melhor colheita.

Hans Koch / Martin Schütz / Fredy Studer
Depois do duo Schweizer/Favre, o segundo agrupamento suíço a mostrar trabalho foi o trio Koch/Schütz/Struder. Este grupo começou por gerar expectativas em alta, com o emproado título do seu trabalho: “welcome to the Hardcore Chamber Music experience”, anunciou Schütz. Mas, apesar do nome, de hardcore esta música não tem nada e de música de câmara pouco se vê. O soprador Hans Koch teve uma actuação digna, mas os seus acompanhantes não passaram de presença limitada - o violoncelo de Martin Schütz foi pouco relevante e o instável baterista Fredy Struder pouco acrescentou. A inclusão de elementos electrónicos conseguiu ainda assim dar alguma cor à esbatida música do trio. Concluindo: música irregular que em alguns instantes conseguiu chegar a bom porto, por um grupo que poderia ter ido mais além mas que não se revelou muito convincente.

Wibutee
Susbtitutos de última hora dos Jaga Jazzist, os Wibutee foram o prato mais “pop” do festival. Perante uma das mais fiéis plateias do festival, os noruegueses abriram o seu electro-jazz jovem, provavelmente a mais acessível das propostas do cartaz. Nesta banda o principal destaque individual vai para o homem das electrónicas, Runo Brondbo. Atrás da maquinaria Brondbo foi gerando os alicerces a partir dos quais os restantes membros do quarteto seguiam. O saxofonista Kornstad esteve à vontade na improvisação, enquanto que o baixo eléctrico e a bateria se mantinham na rectaguarda. À medida que iam aparecendo novas camadas de som, novos samples e batidas, o grupo crescia e a música ganhava intensidade. Utilizando padrões rítmicos emprestados do hedonismo da cultura de dança, este quarteto consegue gerar um ambiente altamente descontraído sem colocar em risco o jogo da descoberta, numa fusão competentemente arranjada. No final tiveram direito a dois encores, proeza única no festival. Os Wibutee saíram vencedores do título de banda mais “cool” - pelo som e pela extraordinária empatia gerada com o público. E que bem que sabe uma brisa fresca numa noite quente de Agosto.

Erik Friedlander
De fama ganha por ser um dos planetas que roda em volta do sol Zorn, Erik Friedlander exibiu na Sala Polivalente o seu projecto “Maldoror”, constituído por composições baseadas na obra de Lautréamont. E a opção pela singela proposta “violoncelo solo” é tudo menos confortável - se ao trabalhar em grupo uma falha individual pode ser escondida pelo trabalho de equipa, no trabalho a solo arrisca-se sem rede. Mas Friedlander conseguiu ultrapassar o obstáculo com um espaçoso à-vontade, tal como Jorge Lima Barreto já tinha feito na tarde do dia anterior. O músico de Nova Iorque utilizou como repertório temas do referido “Maldoror” (músicas que variavam entre a gravidade e a nostalgia) alternados com outras composições (próprias e alheias) – e a interpretação do tema de Eric Dolphy, “Serene”, foi dulcíssima. Frielander demonstrou aptidão para trabalhar no seu velho violoncelo qualquer estilo e a confirmação deu-se no encore, com um rebuçado: um tema do Carlos Santana, em que emulou com grande classe o virtuosismo latino do original. No último dia do festival este foi um dos concertos superiores.

Mephista
Uma das mais aguardadas actuações do Jazz Em Agosto era o trio feminino Mephista. Constituído por três notáveis improvisadoras da actualidade – Ikue Mori no laptop, Sylvie Curvoisier no piano e Susie Ibarra na bateria – adivinhava-se uma grande sessão de comunhão sonora. E as três madames (como alguém lhes chamou) trataram de cumprir meticulosamente as expectativas. Ikue Mori liderou nas tarefas electrónicas e foi concebendo ambientes que se transformavam pela mediação das restantes intervenientes. Curvoisier esteve dinâmica ao leme do piano, com uma entrega incomparável, destilando respostas aos desafios de Mori e introduzindo novas incitações. Susie Ibarra teve uma presença discreta, competente e eficaz, mas recatada. A música, orgânica, foi crescendo ao longo do concerto e a dinâmica de grupo seduziu. O tema do encore terá sido aquele em que se sentiu o peso mais bem distribuído pelas três. As expectativas, que eram bem elevadas, foram cumpridas – mais um processo a ser arquivado na gaveta dos “muito bons”.

Fast’n’Bulbous
A importância de Captain Beefheart na música rock é demasiada para poder ser resumida a poucas linhas. A par de Frank Zappa, o autodenominado Capitão Coração de Bife fez da subversão, invenção e ironia princípios guiadores da sua música e, esticando os limites da loucura razoável, engendrou um dos mais sublimes álbuns rock de todo o sempre: Trout Mask Replica (1969). E é sobre este mesmo disco que assenta a maioria do trabalho dos Fast’n’Bulbous. Este projecto, liderado por Gary Lucas e Philip Johnston, recupera o improvável songbook do genial Don Van Vliet (o nome do artista) e dá nova vida àquela música, que tanto sorve rock como free jazz. E este projecto nem na reprodução visual do universo Beefheart falha: em palco há um arsenal de roupas bizarras, camisas coloridas/havaianas, chapéus - e como cúmulo o baixista Jesse Krakow apresenta-se em palco com calções-abóbora, dois totós e maquilhagem (a lembrar a capa de We’re Only In It For The Money de Zappa). Para além do cenário, a proposta vai até ao essencial, a música desbragada. E o que se viu em palco foi um concerto de rock/jazz bastardo, louco, viciante. O concerto foi uma desbunda intelectual de gozo puro. O festival de free jazz teve um final de free rock. Com muito prazer.
· 05 Ago 2005 · 08:00 ·
Nuno Catarino
nunocatarino@gmail.com

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