Jacco Gardner
Musicbox, Lisboa
04- Fev 2014
Sai-se à rua, apanha-se a segunda molha do dia depois de um dia que já foi longo no escritório, desce-se um par de colinas e atravessa-se uma parcela da cidade. Tudo cool: o Musicbox está cheio e convidativo e no meio da malha humana está até um casal que, do alto dos seus 60 anos, tem mais pinta que todo a casa – a camisa psicadélica, a ginga certa para dançar… tudo o que podemos imaginar. Só por isso, estar encharcado já valeu a pena, mas e Jacco?

© José Silva

Jacco sobe ao palco e fica claro que a noite se vai pautar por uma bonomia tal que, mesmo com a distância do tempo, parece pecado procurar-lhe defeitos. Tudo ali é doce, tudo ali é bonito: a voz quase sussurrada e mergulhada em delays, a guitarra acústica, a palete de cores que ilumina o palco e a projecção (aparentemente aleatória) de trechos de filme - tudo vale para concretizar real um qualquer ideal de beleza. A coisa resulta e até se aguenta, muito às custas dos teclados que, ao conquistar o espaço que mereciam nestas músicas, fizeram deste um quarteto mais sonhador. Mas a aproximação de Jacco à colorida estética dos anos 60 (onde cabem desde os Beach Boys, aos Love e a Syd Barrett) é perigosamente linear e homogénea, e a tal dimensão onírica, quase ácida, acaba por se transformar num leve soporífero opiáceo. Ficamos a salivar por um traço de rebeldia, mas as músicas limitam-se a soar demasiado bonitas, com pouca acutilância.

© José Silva

Embora ainda prevaleça a excessiva candura dessa noite, os exercícios mais longos - que Jacco apresentou como temas novos – deixam esperança para o futuro. Longe de uma quase colagem às suas referências, Jacco aventura-se em estruturas menos rígidas e, logo, mais abertas à experimentação. São, invariavelmente, um piscar de olho à tradição psicadélica liderada pelo órgão; mas são também capazes de deixar a impressão de que a música está ali, palpável, suspensa no ar por cima de nós. Pode ser que seja esse o caminho de Jacco Gardner, o de alguém que reinterpreta e reconstrói uma memória auditiva com 50 anos (pergunto-me quantas pessoas que estavam no Musicbox conhecerão a origem da música de Gardner) em vez de se limitar a canalizá-la.
· 06 Fev 2014 · 16:38 ·
António M. Silva
ant.matos.silva@gmail.com

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